terça-feira, 15 de outubro de 2019

Sobre Vilões e Vilanias...





Eu, como ator (e leonino), sempre tive vontade de interpretar um protagonista. Nestes módicos cinco anos de carreira no teatro, não tive ainda a oportunidade – ou competência – para assumir tamanho desafio. Confesso que essa vontade tem muito mais a ver com a presença constante nos palcos (me dá um nó na garganta quando tenho que sair de cena), do que com o fascínio, em si, pela personagem que se torna o fio condutor das histórias. 

Mas paixão, tesão mesmo, eu sinto pelos vilões.... Existe coisa mais exorcizante do que você colocar para fora todos os sentimentos mais anti-heróis vestindo-se de uma personagem? Já tinha o esboço deste texto preparado, até que esta semana, no nosso grupo do WhatsApp, os meninos levantaram a bola sobre o fascínio que os vilões exercem na vida da maioria das pessoas. Desengavetei o texto e coloquei pra rolo na coluna de hoje. 

Qualquer programa que se preze – filmes, desenhos, séries, novelas, etc. – precisam do velho embate entre os heróis e vilões para dar certo. Não adianta tentar inovar, a fórmula do bolo, como diz o ditado, é essa. E tem vilões que apagam os mocinhos de tal forma, que o desejo de ser protagonista se esvai, pois o brilho estará, contraditoriamente, no lado negro da história. 

Etimologicamente, a expressão “vilão” tem origem na palavra latina “villanus”, referindo-se a alguém ligado a uma vila – uma grande quinta ou plantação agrícola, no Império Romano – significando, portanto, um camponês. Na Idade Média, o termo passou a equivaler a um não nobre. Denotando alguém não nobre, o termo “vilão” passou, modernamente, a ser usado para se referir a alguém que pratica atos não nobres ou indignos, como o roubo, o homicídio ou a violação. Taí, então, o emprego do termo, cenicamente falando. 

O fato é que o mundo hoje está muito questionador. Até mesmo entre nós, amigos do Barba Feita, nos julgamos e nos condenamos o tempo todo. A nossa discussão começou com a visão que as pessoas estão atribuindo ao filme Coringa, que foi pauta de três colunas semana passada. As pessoas estão dizendo que o filme é uma incitação ao mau-caratismo, aos maus hábitos, a serem desonestas! Será que as pessoas precisam realmente de uma obra ficcional para darem voz aos seus demônios? 

Analisemos um fragmento de nossa realidade: as pessoas não precisam (ou não tem precisado) de um declarado vilão para fazerem sinais de arma com a mão e projetarem uma ode à violência contra negros e viados, por exemplo. Essas mesmas pessoas tem seus hipócritas conceitos de defesa da moral como uma cortina de fumaça para justificar seus mais preconceituosos sentimentos contra outro ser humano, os quais eles colocam como o vilão da história deles. E querem me dizer que os personagens de revistas em quadrinhos não podem mais ter escritas suas fantasiosas histórias, pois vão fomentar comportamentos ruins nos outros? Às vezes, me vejo dentro da própria obra de ficção quando assisto a novela das nove, A Dona do Pedaço, onde uma das maiores vilãs sempre justifica suas ações com o bordão “fui criada num convento”. Quer coisa mais realista nos dias atuais, onde as pessoas justificam suas pérfidas atitudes em nome de Deus?

Em filmes, novelas, seriados, livros e histórias em geral, os vilões são denominados os eternos rivais dos heróis, uma vez que vivem preparando armadilhas para prejudicá-los. Na vida real, os vilões verdadeiros se utilizam de métodos perversos, desumanos ou antiéticos para atingir seus objetivos. E neste contexto, ele acaba prejudicando alguém, por vezes, até aquele que acredita nele. 

Os vilões são egos sem superegos. Ele não liga para mais ninguém, além dele, ou daquele que tem algum tipo de interesse. A felicidade dos outros, até mesmo suas vidas, tudo irrelevante. As outras pessoas? Ferramentas para serem usadas e jogadas fora, quando não mais forem úteis. Só querem saber mesmo dos seus planos, do seu prazer e da sua própria felicidade.

Resta saber se você é um vilão convicto ou se está sendo apenas uma marionete na mão de um deles. Pare e analise se em algum momento da sua vida você já não fez uma vilaniazinha ou não foi conivente com a atitude não muito boa de alguém. Uma coisa é certa, meu caro leitor: ninguém é bonzinho o tempo todo. Nem você...

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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