terça-feira, 8 de outubro de 2019

Somos Todos Palhaços




No último fim de semana fui assistir Coringa, o filme de Todd Phillips, que conta a história de origem para o eterno vilão do Batman, trazendo o ator Joaquin Phoenix (fa-bu-lo-so!) em uma nova encarnação do Palhaço do Crime, ignorando qualquer cronologia ou versão do personagem. O longa vislumbra, sob um contexto político, uma Gotham City diferente daquelas retratadas nas franquias de Batman. Vemos diversas cenas em que manifestantes usam máscaras de palhaço sinistras, e até manchetes de jornais com os dizeres “somos todos palhaços” enquanto travam confrontos violentos com a polícia de Gotham. Mas não pensem que meu objetivo aqui é dar um spoiler do filme. A intenção é convidá-lo a assistir e refletir. 

A obra me tirava da zona consciente de telespectador a todo momento quando, por vezes, me pegava pensando em como o mundo está doente. Gothan City poderia ser perfeitamente um retrato do Brasil atual. Mas é também dos Estados Unidos e de tantos outros países cada vez mais afundados numa cegueira ideológica que mascara os sentimentos mais impuros do ser humano. 

E por que a analogia deste texto com os cartazes e as manchetes de jornais da fictícia cidade de Batman? Por que, então, seríamos todos palhaços? Por sermos cômicos, simplesmente? Ou por sermos bobos? Ou por mascararmos nossos sentimentos mais obscuros numa figura ingênua e que teria como função precípua fazer sorrir, trazer felicidade? Na vida, principalmente ultimamente, o que mais se vê é o erro do outro. Dedos apontados, em sinais de armas prestes a lançarem sua sentença mais impiedosa. 

Na obra-prima Lições de Abismo, Gustavo Corção escreve algo bastante interessante: "O homem é ridículo. Sim, ridículo (...). Creio ter descoberto a causa desse ridículo: é o equívoco, o erro prático, o engano colossal que pesa sobre a condição humana. (...) No circo a gente se ri porque certos indivíduos são encarregados de errar de modo intencional, calculado, profissional, mas com um imprevisto que nos oculte momentaneamente a intenção (...). O cômico supõe o social, isto é, supõe a possibilidade de imaginar um picadeiro para o personagem que se singulariza e uma arquibancada para os seus juízes, que pronunciam às gargalhadas o seu curioso veredito.”

O filme nos traz uma reflexão bastante contraditória. Ele nada mais é que o retrato de uma realidade nada cinematográfica. Os tempos obscuros que temos vivido no mundo nos colocam como habitantes de uma real, e não mais fictícia, Gotham City. Nossos heróis tem suas condutas tortuosas justificadas por nós mesmos, pois são nelas que encontramos parte do que realmente somos e sentimos. 

E, talvez, esse texto possa lhe parecer confuso, mas a ambiguidade das minhas palavras é proposital. Por isso, pense bem: quando rimos de alguém, temos consciência de que outros também riem de nós? Quando julgamos alguém, temos a consciência que nossos atos também estão sendo julgados? Acredito que não. Nosso orgulho só nos permite ver o palhaço nos outros, quando na verdade, o ridículo pode estar em nossas próprias atitudes.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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