terça-feira, 5 de novembro de 2019

A Contradição do Patriotismo “Brazileiro”



Antes que tentem me consertar pela americanização no título, que fique claro: ela é proposital. Perdi a quantidade de vezes que se falou, aqui no Barba, sobre as ações do atual governo federal, mas essa é uma pauta que vira e mexe nos incomoda. E, por nos incomodar, trazemos à tona essas reflexões para que, um dia, quem sabe, consigamos fazer com que algumas pessoas entendam que esse governo é um serviço contra a nação, ao contrário do que ele prega o tempo todo em seu discurso cada vez mais hipócrita. 

Na última semana, vi algumas pessoas nas redes sociais que idolatram esse senhor, criticando os eventos de Halloween, a despeito de ser uma tradição norte-americana. As frases de efeito exaltavam Saci Pererê e outras personagens famosas do folclore tupiniquim. Oras, mas não seria o atual presidente o maior incentivador de nos tornarmos à imagem e semelhança dos EUA, visto que seu maior ídolo político da atualidade (não preciso citar que os outros que fizeram história e que merecem a sua admiração são grandes exemplos de fascismo) seria o atual presidente americano? Que patriotismo contraditório, não?

O fato é que as pessoas que apoiam o governo da família Bolsonaro, digo família, pois seus filhos também têm apoio dos eleitores do pai, para mim, se dividem em dois grupos: os que tem caráter parecido com o deles, e, portanto, se identificam com as suas atitudes; e os que o idolatram tal qual as seitas de fanatismo e o colocam, equivocadamente, num patamar de divindade. Fora isso, desculpem, mas não há outra explicação para um brasileiro, em sã consciência, apoiar essas pessoas diante de todas as evidências de condutas tortuosas. 

Bolsonaro sempre afirmou que pretendia ser um presidente honesto, cristão e patriota (oi?). Suas quase 3 décadas dentro da política foram sustentadas por estes pilares. Ou indo mais longe, a própria ditadura militar de 1964, que ele tanto exalta, usou destes bordões como base e, isso, qualquer livro de história ou uma pesquisa na internet para os mais interessados garante o esclarecimento. No fim das contas, Bolsonaro e a ditadura militar são lados da mesma moeda. Representantes da ignorância, do fascismo e da violência, que tentam se mascarar usando esses apelos populares como a corrupção, a religião e o amor ao país. 

Mas voltando ao patriotismo do presidente...

Há mais de século que o petróleo ganhou importância estratégica para o Brasil -  a exploração da matéria prima é um instrumento de interesse nacional que garante não só o desenvolvimento econômico do NOSSO país, mas também o social, principalmente pelos royalties vindos de sua exploração. Bolsonaro, enquanto deputado, sempre foi a favor de entregar esta NOSSA riqueza para o estrangeiro. Mas não se trata apenas do petróleo! O então deputado federal, sempre foi a favor que empresas de fora explorassem a floresta Amazônica. Sempre criticou o uso da Amazônia pelos indígenas, povos originários da região, ao mesmo tempo que afirmava ser preciso buscar parcerias com países como os EUA para exploração das riquezas minerais da floresta. Onde estaria o patriotismo de Bolsonaro defendido a unhas e dentes pelos seus seguidores (ops, eleitores)?

E quando vamos analisar o manto de honestidade que usa para se esconder, é notável que tal manto não serve nele. Bolsonaro já foi do PTB, PP, PSC e PSL (por enquanto), todos partidos cobertos até a cabeça por casos de corrupção (mas o PT é que sempre foi a causa de todas as merdas no país). E falando em corrupção e favoritismo, Jair Bolsonaro é autor de um decreto legislativo para proibir o uso de armas por fiscais ambientais  (afinal, bandido bom é bandido morto), menos seus amigos latifundiários (muitos da bancada do boi) que exploram madeira e criam gado em áreas de proteção ambiental ou são caçadores, exportadores ilegais de animais silvestres ou multinacionais farmacêuticas praticantes de biopirataria. Para ele, no caso, criminoso mesmo, é quem quer proteger o meio ambiente (quem nunca ouviu o discurso dele de que as ONG´s são suas inimigas?). Lembrando que o presidente já foi pego praticando pesca ilegal em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro, e inclusive enfrentou processo no STF por conta disso (mas, infelizmente, não deu em nada pelo fato de ser um parlamentar).

Também, mais recentemente, descobriu-se que ele e seus filhos empregaram diversos familiares em cargos de gabinete na Câmara dos Deputados  - o que deveria ser lido pela justiça como nepotismo. Inclusive, a defesa da família é um dos jargões de Bolsonaro quando se trata de sua suposta moral cristã. Mas como pode uma pessoa que diz seguir os ensinamentos de Jesus Cristo e agir como o presidente e seus herdeiros agem?

Jesus Cristo sempre pregou a palavra do amor, do perdão e da empatia. Qualquer pessoa que siga seu evangelho sabe muito bem disso. O famoso evangelho de João 8, que nos conta o caso da adúltera que estava sendo apedrejada, é uma amostra explícita sobre como posições que Bolsonaro e tantos outros conservadores defendem vão totalmente contra as pregações de Jesus.

Mas nada disso importa para seus seguidores (ao final deste texto, já não os considero com discernimento para serem classificados como eleitores). Está tudo bem dizer que se visse dois homens se beijando na rua e os agredir, que as minorias têm que se curvar às maiorias ou então desaparecerem, que o erro da ditadura militar foi ter matado pouco, ou falar para uma colega parlamentar duas vezes que só não a estupraria pois ela não merecia -  é só se esconder atrás de uma falsa moral cristã, um discurso de patriotismo (que já vimos em poucos exemplos aqui, pois me alongaria demais no texto citando todos, ou vomitaria compulsoriamente sem conseguir concluí-lo) e parecer cumprir nada mais, nada menos que a obrigação de não ser corrupto.

Já deu para ver o tanto de contradições que circunda Bolsonaro, mas, infelizmente, sabemos que a maioria de seus apoios vem de muito mais fundo dentro dessa cova e o combate contra a corrupção e a religião são usados apenas de pretextos. Mas enquanto tiver voz seguirei meu propósito de trazer à tona todas as evidências que me proponho a pesquisar. Afinal, eu sou brasileiro. Com “S” de verdade!

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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