sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Acordem!




Quando eu fazia o primeiro ano do ensino médio (eu era do tempo que chamavam de primeiro ano do segundo grau), havia um livro bem no estilo “tijolão” chamado História das Sociedades, que me acompanhou durante os três anos de estudos. Hoje eu entendo o porquê daquele livro ter me causado tantos pesadelos... Eu não era maduro o suficiente para compreender aqueles textos recheados de reflexões complexas para a minha mente, pois estávamos acostumados com aquele be-a-bá simplório. 

Fui “doutrinado” que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, que Tiradentes, tal como um Jesus Cristo, era o líder da Inconfidência Mineira, e Duque de Caxias, um pacificador. No ensino fundamental existia uma matéria chamada EMC - Educação, Moral e Cívica. No ensino médio, tinha OSPB (Organização Sócio-Político Brasileira), ambas, incluídas no currículo pela imposição militar. Nossos cadernos não podiam ter desenhos. Geralmente eram capas neutras, encapadas com plástico transparente azul e no verso, algum hino. 

Eu achava aquilo uma chatice, pois queria ter um caderno do Garfield. No dia que apareci com um monte de figurinhas de rock colada na capa do meu História das Sociedades, foi um escândalo. Fui parar na secretaria e até chamaram minha mãe. Na certa já deveriam imaginar que eu me transformaria em um marginal, um delinquente. 

O História das Sociedades foi, sem sombra de dúvidas, o primeiro livro que fez despontar uma luz na minha cabecinha e desconfiar que algo estava muito errado. O que me fez ter a certeza e compreender “o todo” foi Casa-Grande & Senzala, do Gilberto Freyre. Mas isso já foi quase na época da faculdade.

Mas quem havia me indicado o livro do Freyre foi a professora de OSPB do ensino médio. Na época, achávamos que ela era louca, pois discordava de um monte de coisas do governo. Chegou a contar que, certa vez, milicos entraram na sala de aula e ela precisou engolir um papel para não ser presa. Lembro dela ter contado, mas não me recordo ao certo do que tinha no tal papel, mas certamente era algo “contra o sistema”. A gente ria das histórias e tenho a certeza de que muita gente não entendeu o recado que ela deu.

Certamente hoje ela seria linchada publicamente. Algum aluno, com um celular escondido filmaria, a exporia nas redes e seria detonada em três tempos. 

Mas ainda bem que tudo tem seu tempo. Hoje, consigo compreender tudinho que ela disse, o que Gilberto Freyre disse e o que o meu companheiro tijolão, todo cheio de figuras do rock tinha a me dizer. Por isso, declarações públicas inadmissíveis não descem pela minha goela. Não queremos rever esse passado de autoritarismo.

O que me irrita profundamente é ver que muitas pessoas acham isso normal. E mesmo os que não acham normal, respiram fundo e seguem sobrevivendo. Parece que estamos cansados, anestesiados.

Hora de acordar. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Márcia Pereira disse...

É assustador, cada dia me surpreendo com as aberrações! Misericórdia!