quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Amor de Mãe





Minha mãe é nordestina, daquelas que saíram bem novinhas da sua cidade natal em busca de uma vida melhor para ela e os pais. Sim, durante muito tempo o seu salário como doméstica era para se manter aqui e ajudar a família, enviando um pouquinho todo mês.

Assim foi com a minha mãe, tias, tios, primos... Eu já nasci no Rio de Janeiro. Filho de uma nordestina e um baiano, uma mistura boa. Posso dizer que bem Carioca!

Durante boa parte da minha infância eu me dividi entre minha vida na “cidade grande” e viagens de três dias dentro de um ônibus que ia rumo ao interior do Brasil. Três dias. Eu odiava, achava chato, um tédio. Mas gostava do resultado final: chegar ao meu destino. Acho que no momento em que eu me acostumava é que tudo acabava e chegava na cidade da minha mãe. Quer dizer, próximo dela. Logicamente, ela não é de uma capital do nordeste, mas do seu interiorzão. Acrescente nos três dias de viagem mais algumas horas dentro de um carro até a cidade em que, de fato, minha mãe havia nascido. Pois é, bem longe e bem diferente do que eu conhecia.

Lembro de não entender o fato da luz, algo bastante comum pra mim, ainda não ter chegado naquele lugar. Qual o motivo da demora? Eles não podem assistir televisão? Falo de uma época que celulares e internet não existiam como hoje. Nem todos poderiam ter e nem todos compreendiam o seu potencial. Uma época inimaginada por vocês e uma lembrança distante pra mim.

Quando vi Regina Casé no filme Que Horas Ela Volta? eu vi a minha mãe. Minhas tias, as amigas de todas elas. Aquela mulher simples, que possui uma humildade com a informação, já que muita coisa é vista como inalcançável. Um objeto de desejo. Sonho distante. Coisa de novela e dos artistas. Rótulos que a própria televisão e a realidade nua e crua foram colocando para cada um.

As chamadas de Amor de Mãe mexeram comigo. Olhar, mais uma vez, para Regina Casé era ver todas essas mulheres que eu já vi ao vivo. Cada uma com a sua dor, com o seu desejo, com a sua vontade de conquistar algo pela sua família. E por elas. O choro, totalmente inevitável, ficou preso na garganta por muito tempo. Até assistir ao primeiro capítulo e ver meu coração em mil pedaços.

O que existe de diferente de trinta anos atrás para hoje? Tirando toda tecnologia que existe no mundo, mas que também não esta disponível para todo mundo da mesma maneira.

Pensar que muitas questões básicas ainda são pauta na mesa da moral e bons costumes é de embrulhar o estômago. Mas é isso aí que a gente acaba encontrando quando se atreve a sair dois centímetros fora da nossa bolha. Uma loucura total!

Talvez, olhar pra Regina Casé e ver a representação do que a gente espera que seja nossa mãe, é o que precisamos nesse momento. Na verdade, acho que todo mundo, independente do grau de instrução e do momento que está vivendo hoje, precisa de um bom e belo colo de mãe.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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