sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Não Vamos Nos Acovardar!




"Nós estamos sendo criminalizados, nós estamos sendo atacados, nós estamos sendo condenados (...), nós vamos emburrecer se tivermos que vir nesse plenário defender o óbvio. E é isso que nós estamos fazendo. Que absurdo é esse de ter que sentar aqui e falar [o óbvio]! (...) Somos um mercado que tem que ser respeitado e nossos representantes têm que ser nossos representantes, não podem ser nossos antagonistas. Não vamos nos acovardar, nós temos uma lei de uma mãe da cultura brasileira que foi atacada diretamente no coração, isso atingiu a todos na jugular. Nós estamos bravos, tristes."
A declaração acima é de Dira Paes, uma das minhas atrizes favoritas. Descendente de europeus, índios e africanos, Dira nasceu no interior do Pará e teve uma infância pobre, ao lado de outros sete irmãos. Formou -se em Artes Cênicas e Filosofia e, para mim, é um exemplo de mulher batalhadora, lutadora, persistente e resistente. 

Sempre versátil em seus papéis, fez o Brasil rir com a inocência de Solineuza, na série A Diarista, com a periguete Norminha, de Caminho das Índias, e fez todo mundo sofrer com a Celeste, de Fina Estampa. Lembro que a atriz me chocou profundamente com sua atuação em Amarelo Manga, de Claudio de Assis, filme que ganhou mais de 20 prêmios e é considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Nele, Dira Paes interpretou Kika, uma evangélica. Outra interpretação polêmica (e sensacional) foi em Baixio das Bestas (também de Claudio de Assis), onde brilhou como a prostituta Bela. Também fez a população chorar com a pungente D. Helena, mãe de Zezé di Camargo e Luciano, em Dois Filhos de Francisco. Jorge Furtado, que a dirigiu em Meu Tio Matou Um Cara, já declarou que Dira é a atriz-símbolo da retomada do cinema nacional.

Dira sempre ilumina. E essa semana, Dira resplandeceu ainda mais forte.

A narrativa que abre esta coluna fez parte do belo discurso da atriz durante uma Audiência Pública em Brasília, realizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), para ouvir argumentos contrários e favoráveis ao decreto do presidente Bolsonaro, que transferiu o Conselho Superior do Cinema para a Casa Civil da Presidência da República e alterou a estrutura do colegiado. A mudança foi prevista no Decreto nº 9.919, de 18 de julho de 2019, publicado no Diário Oficial da União. 

A audiência foi convocada pela ministra Carmen Lúcia, relatora da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (uma das ações que fazem parte do controle concentrado de constitucionalidade), protocolada pela Rede, em agosto, contra o decreto. Nesta mesma ação também está em discussão a suspensão do chamamento para filmes nacionais pela pasta.

Bastante emocionada, Dira Paes fez um desabafo incontestável e de improviso sobre o setor audiovisual do atual governo e defendeu brilhantemente a cultura do Brasil, fazendo todos refletirem e eu, às lágrimas. Diante dela estavam, entre outros, os atores Caio Blat e Caco Ciocler, o cineasta Luiz Carlos Barreto, Gregório Duvivier e Caetano Veloso. O discurso completo dela pode ser visto clicando-se aqui.

De acordo com o representante da Casa Civil, a mudança foi para que funcionasse. De acordo com a fala, a Presidência da República tem mais orçamento que os ministérios para fazer que as políticas públicas aconteçam. O discurso, obviamente, totalmente hipócrita, já que o presidente já mostrou seu descontentamento com o cinema nacional e deixou isso bem claro em diversas falas. Todo mundo se lembra das declarações absurdas em torno de filmes como Bruna Surfistinha e sua opinião com produções sobre temática LGBTQI. É notório que a intenção é censurar, pura e simplesmente. Essa decisão estapafúrdia de tomar conta pode ser comparada como a de um lobo tomando conta de um rebanho, uma raposa cuidando de uma granja ou de um coelho morando no meio de uma horta. A intenção é destruir tudo que o cinema conquistou e que o tornou como um dos mercados mais reconhecidos e rentáveis do mundo.

E revendo o discurso da atriz, com toda sua inteligência, delicadeza, classe e bravura, Dira nos conforta, como o afago de uma grande mãe, comprovando que não estamos sozinhos e chamando para a luta. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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