terça-feira, 26 de novembro de 2019

Religião Não Define o Caráter de Ninguém





Muito se falou sobre o último capítulo da novela das nove, A Dona do Pedaço, na semana passada e, em especial, a última cena, que ilustra este texto. Críticas à parte, sobre bizarrice ou canastrice, o que me levou a desenvolver meu pensamento hoje não foi a obra em si, mas o recado subliminar que tinha naquela cena. Já estava pensando em algo, quando meu irmão Felipe me sugeriu o título do texto, e pensei que minha percepção estava no caminho que eu queria.

Pois bem, muitos falaram, para variar, que a Rede Globo é uma emissora satânica, que prega o mal, ou que é contra os valores morais e religiosos, destacando em seus discursos que suas obras fomentam comportamentos ruins nas pessoas. Sério mesmo? O fato é que não estou aqui para defender emissora A ou B, até porque não ganho para isso, mas para dar minha impressão de espectador assíduo de telenovelas e o que algumas obras me trazem de lição e reflexão. 

E hoje, o que mais vejo, são atrocidades realizadas pelas pessoas em nome da fé. As pessoas têm buscado cada vez mais justificar suas falhas comportamentais, escondidas sob o escudo religioso. Historicamente, protestantes cometeram massacres, católicos cometeram massacres,muçulmanos cometeram massacres. Todos em nome do Deus que acreditavam. Mas o pouco que conheço sobre o que pregam estes deuses, uma palavra é comum a todas essas religiões: amor

O fato é que, pelo menos para mim, ser religioso não te define com um caráter superior ao de ninguém a ponto de julgar ou se sentir no direito de. Na verdade, acho bastante difícil definir o que é caráter. Acredito que todo mundo tenha. Alguns possuem um bom caráter e outros um mau caráter. Ter bom caráter, também, a meu ver, não significa ser santo. Acredito que uma pessoa de bem pode sim falhar, falar uma mentira ou, até mesmo, cometer um adultério. O bom caráter, então, motivaria, a confissão e o abandono do caminho da mentira ou da traição. Quem é mau caráter não assume seus erros. Esconde seus pecados. É capaz de fazer tudo isso sem sentir culpa. Falta-lhe integridade. Esse não vive seguro. Sabe que, no fundo, as coisas não estão certas e talvez, por isso, busque em alguém ou em algo a justificativa para seus atos.

Uma definição popular e antiga é: Caráter é o que você é quando ninguém está olhando. Caráter, portanto, tem a ver com os valores que cultivamos no íntimo, os quais nos obrigamos a praticar mesmo sem ninguém para observar, são as nossas ações de empatia com o próximo sem julgá-lo, pois, o seu próprio livre arbítrio direcionará suas sanções. Quem deixa de fazer o mal apenas porque está sendo vigiado não está preocupado com caráter, mas somente com reputação, ou seja, com o que pensam de si.

Portanto, meu caro, não é uma novela que vai ditar a tendência comportamental de alguém ou de uma religião. Talvez, o que ela queira mostrar é justamente o contrário: para você ser bom de verdade, não precisa frequentar um templo. É só ser. Julgue menos, aponte menos, entenda mais e tome conta dos seus atos e da sua vida. Afinal, só você pode mudar a si mesmo e o que você sente. Simples assim.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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