segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

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É hoje. Tem que ser hoje. Já estou atrasado há três dias. Não gosto disso. Daqui a pouco os clientes descobrem e perco minha moral. Sem moral, sem dinheiro, sem dignidade. É hoje. Será hoje. Custe o que custar. 18:15. O porteiro já deu a sua saidinha pra olhar a gostosa do prédio. Queria ter um emprego assim. Burocrático. Com salário garantido ao final do mês. Sempre tem uma porra-louca com tara por homens de uniforme. Ainda teria uma fodazinha eventual de vez em quando. Aposto que aquela ali já andou ciscando com o Paraíba. Olha só como ela balança o quadril. Uma vaca. Gostosa. Mas vaca. Vadia. 18:24. Cadê esse viado que não chega? Tomara que chegue sozinho, só estou recebendo por um presunto. Dois pelo preço de um, nem em promoção. Não sou Casas Bahia. 18:27. Nada. 18:27. Acho que vou perder a novela de novo. 18:27. Não é possível. Porra, cadê esse filho da puta? 18:28. Finalmente! Nunca fui tão impaciente. Merda. Porra. Caralho. Puta que pariu, o viado veio acompanhado. 18:29. Acho que o porteiro se dá bem hoje. 18:30. Foda-se. Lá dentro dou um jeito. Vou entrar. 18:32. Bom essa piranha estar falando com o paraíba, nem vai olhar pra mim direito. 18:33. Não gosto de elevadores, nunca gostei. E nem é pelas câmeras de segurança e pelo meu direito de imagem. Não ando em caixotes pendurados no ar. Escadas são mais seguras. Mais ventiladas. Mais amplas. Pena não serem todas como naquele prédio da São José. 18:36. 4o andar. Só faltam mais 2. Preciso correr mais. Talvez amanhã. Preciso me livrar logo desse serviço. 18:40. 6o andar. Agora a diversão começa. É hoje. Será hoje. Nada de atrasar mais três dias. Não vou perder minha moral, o dinheiro, a dignidade ou a novela de novo. Será hoje. Custe o que custar. Hoje. 18:41. TRIMMMMMMM.

'Pois não' é o caralho, seu viado. Tá pensando que ia se safar, é? Pensou errado, seu puto. Não adianta correr. Vai fugir pra onde? Vem pra cima que passo fogo. Gertrudes é velhinha, mas está cheia de bala na agulha. Literalmente. 18:44. Cadê sua amiga? Não sabia que gostava disso também. Já tá pelada na sua cama ou não começaram a brincar ainda? Deixa eu ir ver. Fica quieto aí no canto, nem um pio enquanto recolho o seu lixo lá no quarto. 18:45. Vem pra cá, piranha. Você não está na minha lista. Pode ser o seu dia de sorte. Só depende de você. Mas se se meter à besta vai ficar com o olho roxo igual ao imbecil ali, piranha. 18:46. Caraca, maluco. A festinha hoje ia ser boa, hein. Sabia que você não me enganava. Sai do banheiro, pirralho, que eu já te vi. Sem grito, porra. Meu negocio não é com você. Não tenho paciência pra viadagem, nem vindo de criança grande. Ainda mais de viadinho. Fecha a braguilha que não curto pirralhos. Sua mãe sabe que você está aqui, pirralho? Ela sabe que gosta de comer viado velho? 18:47. Os três, aqui. Larga esse celular, que já disse que não estou pra brincadeira e não tenho interesse em você, moleque. 18:49. Amarra os dois, vadia. Sem conversar. Mas não dá um nó de fetiche, não. Imagina que vai é roubar um gringo safado, de pau pequeno, não fazer ele gozar e receber uma mixaria em troca. Não tenho a noite toda. Vamos. 18:54. Agora tampa a boca deles porque odeio xilique de viadinho. De dois, de um velho e um fedelho saído dos cueiros, menos ainda. 18:56. Sabe de uma coisa, mudei de ideia. Acho que mereço um pouco de diversão. Você não ia receber pelo serviço? Pois eu vou aproveitar pra cobrar por ele. 18:56. Vocês dois vão ficar quietinhos aí enquanto eu tenho uma conversa com a minha nova amiguinha no banheiro. 18:57. Se eu ouvir alguma coisa vindo daqui, vocês não vão gostar quando eu voltar. 18:59. Vem cá, piranha, e nem reclama que sei que deve bem deve gostar de um puxão de cabelo dos bons. Cala essa boca. Pensa que o pagamento é alto: o valor da sua vida ridícula, se é que você acha que ela vale alguma coisa. Ou, então desse aplique fajuto que esconde seu sotaque cearense. Cala a boca, porra, já mandei. Deve ter dado muito por aí pra conseguir ele. Muita zoação de playboyzinho na Atlântica. Muita punheta pela janela do carro. Muita gozada na cara. 19:02. Abra essa sua boca e usa aqui com um macho de verdade. Já deve ter recebido sua grana pra vir aqui ser rufião desse pirralho. Agora faz o serviço. Ganhou o quê? Desconto na multa do condomínio? Sabia que valia à pena ser síndico. Melhor que ser porteiro. Vou anotar no meu caderninho de resoluções de ano novo. Comer as putas que não pagam condomínio. Quanto será que vale uma cota extra? Pensa que eu acredito nos seus 19 anos? E alguém acredita nessa baboseira? No mínimo já passou dos 27. Vamos, não mandei parar. E larga de choro que só me dá mais tesão. Aquele viado velho sabe escolher, o pirralho ia se derreter e comer ele fácil depois de uma dose disso. Mas vai ficar pra outra hora, ou melhor, não vai ficar, porque não vai ter próxima. 19:10. Para que já perdi o jornal, não quero perder a novela também. Abre essa perna que quero ver o material. Nem um pio, porque nem quero lembrar que você tem um rosto com voz. Nem finja gemer porque isso não é um acordo comercial. Só eu estou tendo prazer, eu sei disso. Não precisa fingir. De costas que é mais gostoso, vai. Não sou fácil de enganar. Piranha vadia. 19:16. 

19:17. Se comportaram direitinho aí? Espero que não tenham se incomodado com o barulho. Não se preocupem, agora é só o silêncio. O banheiro está um pouco vermelho, mas nada que um pano úmido não limpe. Ela estava naqueles dias. E um pescoço quebrado não faz sangrar como pedaços de espelho barato. 19:19. Porra, não tem bebida de homem nessa geladeira. 19:21. Onde estávamos? Claro. Na parte do acerto de contas. 19:22. É hoje. Eu disse que tinha que ser hoje. Três dias de atraso. Minha moral, meu dinheiro, minha dignidade. É hoje. Será hoje. Não há mais o que esperar. 19:23. Você não merece a minha Gertrudes. Moleque, quer ver a cara do desespero? Fica de lição. Já disse que não quero nada com você. Acalme-se, porra. Ninguém te viu entrar, não vão saber que estava aqui com ele e você também não vai querer que ninguém saiba. Mas o filho da puta aqui sabe porque ele vai morrer. Não sabe, viado? 19:25. Nem adianta se debater, não quero papo e não tem volta. Serviço contratado, serviço feito. Eu disse que ia ser hoje. É hoje. Nunca mais vai deixar dívida por aí e se engraçar com o sobrinho do cara errado. É agora. 19:26.

19:26. 19:27. 19:28. 19:29. 19:30.

19:30. Eu disse que seria hoje. Tinha que ser hoje. Foi hoje. 19:30. Moleque, hoje é o seu dia de sorte. Estou de bom humor. Aproveita que ninguém te viu e some. Você não me viu aqui porque não esteve aqui. Se te acharem ou você der com a língua nos dentes, todo o mundo vai descobrir que você é viadinho, seu pai, sua mãe, sua namoradinha e todo o mundo da sua escola. Vai virar o viadinho da rua e todo engraçadinho vai querer te comer à força. 19:32. Sai pelo mesmo lugar que entrou, some do bairro por muitos meses, desaparece. Ninguém gostava desse viado, a vizinhança vai se sentir mais segura. Fica esperto. Amanhã não tenho tempo pra acompanhar jornal, mas se alguém desconfiar que eu estou envolvido com essa festinha aqui, eu te acho. E te garanto que vai ser muito pior que te chamarem de viadinho na rua. Engole esse choro, cala essa boca e some. Não quero mais saber de você e você não vai mais querer saber de mim. Só tenho compaixão uma vez na vida. Minha moral, minha dignidade não valem seu sangue ralé. 19:36. 19:37. Agora vai. Some. 19:38.

20:15. O trânsito está ótimo. Vai dar tempo de ver a novela. Aqueles idiotas chatos da Letras vão estar lá na biblioteca pra atrapalhar minha vida amanhã, vou ter que dar uma pausa na leitura. Ia adorar que me pedissem um servicinho contra eles. Pelo menos posso acordar tarde, morar dentro do Fundão tem suas vantagens. São 20 e 18, vou conseguir chegar em casa cedo. A tempo da novela. Minha honra, minha dignidade. Ainda comi aquela vaca. Um dia ainda vou ser porteiro. Ou síndico. Eu disse que seria hoje. Amanhã tenho meu dinheiro. 20:19.

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Leandro Faria  
Seu Gui do Armazém é o alter-ego de Gleison Santos. Ou talvez seja o contrário. Quem poderá saber?
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