quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Ainda Bem Que Eu Sou Flamengo





O dia do lançamento do nosso livro, Barbitúricos, também foi muito importante para mim por outro motivo. Muitos sabiam que eu estava inquieto porque era a final da Copa Libertadores da América de futebol e o meu time, o Flamengo, a estava disputando pela primeira vez em 38 anos (ou seja, eu nunca havia visto tal oportunidade). Futebol é um assunto raro aqui no Barba Feita (e creio que só apareceu pelas minhas mãos - talvez pelas do Marcos Araújo, se não me engano). Pode parecer superficial, mas nesse dia (e nos que se sucederam) foi muito possível comprovar que futebol é muito mais do que um monte de homem correndo atrás de uma bola.

A cidade estava mobilizada para o jogo. Boa parte do país estava. Afinal, o Flamengo tem mais de 40 milhões de torcedores. Isso é cerca de 1/4 dos brasileiros, mais do que um Canadá e quase uma Argentina inteira - aliás, o rival River Plate era justamente o segundo time mais popular da Argentina. Eu saí correndo do lançamento, atravessei a Avenida Presidente Vargas vazia (digno de uma final de Copa do Mundo - ou da novela Avenida Brasil), e me enfiei num boteco pé sujo onde eu sabia que uma amiga que havia ido aos autógrafos estava. Já havia começado o segundo tempo. Nunca imaginei tal situação...

O Flamengo perdia por 1x0 desde o início do jogo. Mas havia esperança... Ninguém arredava o pé. Começou a chover e o vento nos molhava, mesmo embaixo de uma cobertura. De repente, faltando dois minutos para o tempo regulamentar do jogo acabar, o artilheiro do time, Gabigol, marcou. Todos os que estavam na calçada da Presidente Vargas assistindo ao jogo explodiram em comemoração. Eu pulei que nem um louco. Nem eu tinha noção do quanto aquele gol me fazia feliz. E quis o destino uma surpresa ainda mais, três minutos depois, já nos acréscimos: mais um gol do Gabigol. 2x1, jogo virado, inapelável. Flamengo bicampeão continental. Primeira vez que eu via esse título. Era um êxtase único.

No segundo gol, a explosão foi ainda maior. Vi pessoas chorando, abraçando estranhos na rua. Eu pulei, vibrei, gritei... Meu companheiro Victor, que não é muito afeito a futebol, ria com estranhamento. E eu disse a ele: "isso é a máfia do futebol! Isso é Flamengo! Agora você entende?"

Pode parecer superficial, como falei lá em cima, mas o futebol é mágico. Ensina a gente a ter esperança e fé. Que nada está terminado até que efetivamente se acabe. Que nenhuma glória é eterna e que trabalhar para ganhar é difícil, mas para se manter no topo é ainda mais. 

Torcer pro Flamengo, ultimamente, tem sido um alento. Inclusive por ver tanta gente mobilizada em prol de algo, num momento em que nos dividimos e nos odiamos com tanta facilidade... A recepção ao time na Avenida Presidente Vargas no dia seguinte foi digna de Carnaval ou das Manifestações de 2013. Impressionou o mundo. Durante a festa, veio a confirmação do segundo título em menos de 24 horas, devido a uma combinação de resultados. Mais celebração. Festa da Favela à Zona Sul. 

Poucas horas depois, eu viajava à Colômbia. Aqui, todos tentam adivinhar a minha nacionalidade e, quando sabem que sou brasileiro, falam logo de futebol. Sim, somos mais conhecidos pelo futebol no exterior do que por outras coisas "mais nobres". Os colombianos (e lembro que os uruguaios também) acompanham o nosso campeonato e a nossa seleção. Até torcem pela gente. Sabem quem é Pelé, Zico, Sócrates, Tostão, Ronaldinho e Gabigol. Teve até um que falou dos dois títulos do Flamengo em menos de 24 horas. Olha que coisa incrível... 

Sim, pode parecer superficial. Mas, definitivamente, o futebol nos une. Inclusive além das fronteiras nacionais. E nos faz aprender na pele a magia dele. Fiquei rouco por dias e, até agora, a imagem daquele segundo gol não sai da minha cabeça. Como dizia Djavan, ainda bem que eu sou Flamengo!

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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