sábado, 21 de dezembro de 2019

Barba Falha: Os Ranços de 2019





Nem só de destaques positivos foi o ano de 2019 - e, eu ouso dizer, a coisa foi bem pelo contrário. Muito honestamente, acho que 2019 foi o ano da vergonha. Foi o ano da barbaridade. O ano em que os ratos, que já saiam timidamente dos esgotos anteriormente, botaram a cara no sol com vontade e sem medo de serem ridículos e detestáveis. Meu sonho é em 2020 fazer o Belchior e cantar "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!". Será que conseguiremos? Seguirei tentando. 

Então, pra finalizar essa semana especial do Barba Feita, onde elencamos os destaques positivos de diversas áreas de entretenimento, nada mais justo do que colocar também todo o nosso ranço pra fora. De apontar os absurdos e as bestialidades. E mostrar que as pessoas até podem ser escrotas, mas que estamos vendo, sendo resistência e continuaremos apontando sua imbecilidade.

Assim, sem mais delongas, com vocês, os maiores ranços de 2019, na opinião de cada um de nós, reles e humildes colunistas do Barba Feita!

Leo Dias
Por Leandro Faria

Como foi difícil escolher apenas um ranço em 2019. Foi um ano em que foi tão fácil odiar, porque sim, as pessoas são odiáveis e cada vez mais imbecis. E eu juro, quase optei por um ranço genérico - bolsominions em geral, porque essa raça nem gente é, são apenas odiosos e vermes detestáveis que não merecem nenhuma gota de respeito. Mas optei por um nome real do mundo pop que representa bem o quão doente está a nossa sociedade.

Leo Dias é jornalista. Leo Dias é gay. E Leo Dias é recalcado pra caralho. Venenoso, mesquinho, com mil vícios (que são doença e precisam ser tratados, não usados para autopromoção) e dono de uma visibilidade incrível, o cidadão é apenas odiável. É visível, por exemplo, seu rancor com Anitta (e eu não tenho nada a favor ou contra a cantora, que coleciona desafetos na indústria do entretenimento), a quem ele deve muito de seu sucesso e não consegue descolar a imagem e, por isso, tenta diminuir a todo e qualquer custo. É triste. E vergonhoso

No fim das contas, o meu escolhido representa um pouco do todo à nossa volta. Nossa sociedade é um pouco como Leo Dias: fútil, recalcada e cheio de merdas que esconde enquanto aponta o erro alheio. Infelizmente.

Marcelo Crivella
Por Julio Britto

Na verdade, minha lista de ranços poderia ser objeto de todas as minhas próximas colunas de 2020. E, foi bem difícil decidir por ele, já que tenho alguns que entraram na lista dos meus colegas. 

Dono de uma cara de bom cordeiro e fala mansa, Marcelo Crivella, o atual prefeito do Rio, nunca me passou pela garganta. Primeiro que ele já possui histórico de parentesco com um ser que eu tenho verdadeira ojeriza: Edir Macedo. Como eu lembro (e muito bem!) dos famosos sacos de dinheiro no Maracanã, arrecadados pela IURD em idos anos 80, vendendo pedaços do céu, me embrulha o estômago saber sobre qualquer pessoa que tenha contato e convivência com o bispo mais famoso do Brasil. Aquele que constituiu fortuna à custa da fé e ingenuidade dos outros.

Crivella não só é uma pessoa sem escrúpulos, como um dos piores – senão o pior – prefeito que esta cidade já teve, desde que eu me entendo por gente. Atesta-se sua conduta ao caos instalado na saúde pública da cidade, pela sua péssima e corrupta administração (afinal, o bispo não esconde de ninguém sua manipulação de votos na Câmara para aprovar o que quer). Mas não podemos esquecer da segurança e da educação que também caminham a passos largos rumo ao colapso. 

O fato é que a polaridade instalada na sociedade brasileira, é a única e exclusiva culpada de tudo que temos passado. Não se importa mais se pessoas morrem por confrontos entre policiais e bandidos ou na fila, à espera de um atendimento médico. O que importa é que os “esquerodopatas comunistas” são culpados por toda a corrupção do país. E, se para eu continuar tendo razão faz-se necessário meu apoio rumo ao poder para políticos de direta, mesmo que claramente despreparados e mal intencionados, a despeito da necessidade de meu irmão-cidadão, eu o farei. Em nome de Cristo Jesus, amém!

Sílvio Santos
Por Paulo Henrique Brazão

Admito que escolher o maior ranço do ano foi páreo duro. Chegar aos meus dois finalistas, Silvio Santos e Diego Hypólito (ele mesmo, que eu já defendi aqui no Barba Feita, inclusive selecionei o texto para o nosso livro, Barbitúricos), até que não foi difícil. Eleger um deles é que foi... Mas acabei sendo mais bonzinho com quem ainda viveu menos e tem mais chance de se redimir e escolhi o dono do Baú e do SBT como o ranço de ouro de 2019.

Silvio Santos talvez seja um dos maiores – se não o maior – comunicador da televisão brasileira. Já foi tema de coluna minha aqui no Barba Feita. Porém, de uns tempos para cá, ele tem pisado e muito na bola. Na verdade, já passou da pisada de bola: Silvio tem demonstrado o quanto é machista, homofóbico e racista. No episódio mais recente, ignorou a escolha do público por uma cantora que recebeu 84 votos da platéia (a segunda colocada ficou com apenas cinco!) simplesmente por ela ser negra. Escolheu, por conta própria, outra vencedora por ser “mais bonita”. Em outra ocasião na qual uma menina negra dizia que queria ser artista quando crescesse, ele questionou: “Com esse cabelo?”. Sem contar passagens anteriores deprimentes com Claudia Leitte, Pabllo Vittar...

Muitos dão a justificativa de que SS está gagá. Sua senilidade não pode ser desculpa para desfilar o seu rio antiquado de preconceitos. Silvio é dono de uma emissora, uma das maiores do país, que é uma concessão pública. Tem responsabilidade com o que fala para milhões de brasileiros. E aí ainda tem um questionamento válido: será que ele sempre foi assim e nós, em outras épocas, não nos incomodávamos? Ou ele que não demonstrava essa falta de limites? Fato é: Silvio Santos já passou da época de se aposentar, para que o seu legado como comunicador (que tem muitas coisas boas ou ao menos afetivas para o público) não se esvaia na mesma lama onde suas ideias estão se enterrando.

Cancelamentos
Por Silvestre Mendes


Meu maior ranço de 2019 não se concentra em uma pessoa só. O ano merece uma lista exclusiva dos maiores embustes que já existiram em toda história. Mas uma prática ficou mais forte: o cancelamento. Seja uma celebridade, sub celebridade ou alguém influente em alguma rede social, fez uma declaração duvidosa, que algum grupo não concorda, já vemos hashtags e trend topic surgindo para cancelar a “pessoa” em questão. Acho válido que quando um discurso ou fala que estimule preconceito ou pré-julgamentos ganhem o holofote eles sejam rechaçados. Só acho que esse tipo de comportamento, no lugar de ser algo que faça os outros crescerem, vira uma caça às bruxas. 

Qualquer discurso feito por qualquer “representante” de algum grupo acaba recebendo uma vigília ferrenha, que fica no aguardo da próxima falha/falta que possa acontecer. Alguns momentos, até falas foram colocadas fora de contexto para legitimar um início de cancelamento. Ao que parece, o ato de cancelar alguém se tornou mais prazeroso do que analisar a fala problemática dita pela pessoa. Uma grande pena.

Acho que vivemos um momento em que é oportuno ficar ligado no que é dito pelo outro, assim como no que dizemos também. Só não se pode presumir que tudo é feito para ofender ou desqualificar. Existe a opinião, assim como a desinformação, só não podemos deixar que tudo vire uma avalanche de preconceito. Acho que poderiam cancelar menos e educar mais… Dessa forma todo mundo pode sair ganhando.

Olavo de Carvalho
Por Marcos Araújo

Eu sempre tive muito respeito por pessoas mais velhas. Foi um ensinamento que herdei de meus pais e sempre sigo à risca. Mas este senhor é uma exceção à regra, pois está na estratosfera da boçalidade. Sempre tive ranço de certas criaturas e todo mundo sabe da minha implicância com Paulo Coelho e Romero Britto, mas essa minha aversão foi dissipada tamanho o horror que desenvolvi por este senhor e sua fama de “guru”.

Ele se autoproclamou filósofo, diz que é jornalista e astrólogo, mas até hoje eu não sei qual é sua formação acadêmica, já que ele mesmo já declarou que só cursou o ensino médio. Suas declarações polêmicas e cheias de ódio são a cara do Brasil atual. Ele tem um curso virtual sobre história da filosofia e, acreditem, tem muita gente que paga por isso. Para ver o cara falando sobre teorias de conspiração em torno do marxismo cultural e críticas em cima de dezenas de correntes filosóficas e intelectuais. E, olha, tem gente que paga por isso.

Foi membro do partido comunista e tornou-se, um belo dia, anticomunista. Não acredita no aquecimento global. Para ele, Isaac Newton disseminou o “vírus da burrice na Terra”, Galileu era um charlatão, a esquerda política dominou a política, mídia, ensino e cultura através do gramscismo, que a AIDS não representa risco para os heterossexuais ou que seja um perigo para a humanidade, já que foi disseminada pela indústria farmacêutica para captar verbas governamentais. Inclusive, na época da votação do impeachment de Dilma, quando o deputado Jean Willys cuspiu em Jair Bolsonaro, Olavo, nas redes afirmou que Jean, sendo “membro de um grupo de risco”, deveria se submeter a um exame para verificar “se sua saliva não transmite o vírus da AIDS”, além de outros comentários homofóbicos. À época, A Associação Brasileira de AIDS (Abia) lamentou o desrespeito e, em nota, recomendou que o intelectual fosse “imediatamente submetido a exames para verificar se a sua saliva não transmite o vírus da ignorância e do preconceito”.

É uma vergonha que este senhor, que nem mora no Brasil, tenha tanta influência na política com discursos cheios de ressentimentos equivocados, intolerantes, falsos, preconceituosos e delirantes sejam munição para grupos conservadores para uma suposta moralização social, repleta de ódio. Lastimável e desprezível.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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