sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Cinquenta





Provavelmente eu seja um cara meio aferventado por ter nascido em um ano pra lá de frenético, pois foi marcado por fatos inesquecíveis. O ano de 1969 foi privilegiado em tantos avanços científicos e tecnológicos que hoje é impossível ver a vida sem aqueles grandes passos.

Já que estamos falando de passos, não podemos deixar de iniciar com os mais famosos que foram marcados naquele ano: Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua. Depois de viajar quase cinco dias para chegar, ficaram por lá por duas horas e quarenta e cinco minutos... Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade, disse o astronauta. Eu ainda estava na barriga da minha mãe, mas certamente ela se arrepiou vendo aquelas imagens na tevê em preto-e-branco e cheia de chuviscos.

Em 1969 também nascia o embrião do que anos mais tarde seria conhecido como a internet. Teve origem como um produto da Guerra Fria, já que o sistema pertencia ao Departamento de Defesa norte-americano e era uma garantia de comunicação entre cientistas e militares em caso de bombardeios. E então, no longínquo 29 de outubro, um professor da Universidade da California enviou para um amigo de Stanford a primeira mensagem eletrônica que percorreu dois computadores através de um sistema chamado Arpanet. A mensagem supostamente deveria ser a palavra login, mas o sistema caiu após o professor digitar lo

No Brasil, o general do Exército Médici tomava posse e ficou caracterizado como os anos de chumbo da ditadura, por causa da repressão e violência contra os opositores. Naquela época, o Ministro da Fazenda, Delfim Netto, abriu o país ao capital estrangeiro, diversas empresas multinacionais se instalaram no país e os grandes fazendeiros passaram a produzir para exportação, ampliando o PIB e diminuindo a inflação. Em contrapartida, a política salarial do governo fez com que mais de 13 milhões de brasileiros passassem fome, palavra que foi proibida de ser mencionada pela imprensa. Cíclico, não é mesmo?

Naquele ano aconteceria o primeiro transplante de coração artificial. Pelé marcava seu milésimo gol no Maracanã. O Jornal Nacional ia ao ar pela primeira vez, assim como os americanos Vila Sésamo, Scooby-Doo e o humor britânico nonsense e surrealista do Monty Phyton´s.

Há 50 anos também acontecia um dos mais terríveis massacres liderado pelo maníaco Charles Manson e sua gangue, que matou várias pessoas, entre elas, a atriz e modelo Sharon Tate, que estava grávida do diretor Roman Polanski, que tinha lançado no ano anterior, o clássico O Bebê de Rosemary

No cinema, brilharam Butch Cassidy and the Sundance Kid; Midnight Cowboy, Z, de Costa-Gavras; Topázio, de Alfred Hitchcock; Satyricon, de Fellini; Macunaíma, com Grande Otelo e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha. 

Na música, acontecia o festival de Woodstock. Foram três dias de rock, 32 bandas e mais de 500 mil pessoas, considerado o marco do movimento da contracultura em plena Guerra Fria. David Bowie gravava Space Oddity, que alavancou sua carreira. Abbey Road (o disco) e a foto dos Beatles atravessando a faixa de pedestres (que se tornou icônica) também fizeram parte deste ano, quando também John, Paul, George e Ringo fizeram a última performance pública tocando no telhado dos estúdios da Apple Records, em Londres. Foi o ano em que o The Who lançava Tommy, a ópera rock; o Led Zeppelin surgia, assim como o The Stooges, o Renaissance, o MC5 e o Yes. Foi o ano de Yellow Submarine e de Something e The long and winding road, as duas músicas mais lindas de todos os tempos. No estilo thrash, mas mesmo assim, ainda cult, não saía das rádios aquela audaciosa música francesa que mais parecia saída de um filme pornô com letra picante e gemidos simulando uma relação sexual chamada Je t´aime... moi non plus com Serge Gainsbourg e Jane Birkin. No Brasil, Roberto Carlos bombava nas rádios com um de seus maiores hits de todos os tempos: As curvas da estrada de Santos.

Também acontecia a primeira manifestação moderna de libertação gay, com a rebelião em Stonewall, um bar em Manhattan, após uma invasão policial. Por mais que ainda tenhamos uma rotina de agressões, batidas policiais em bares gays na década de 1960 com homossexuais sendo agredidos e presos eram habituais! Se aquele motim não tivesse acontecido, certamente a luta (que infelizmente ainda não cessou) teria uma outra direção.

O fato é que eu tenho o maior orgulho de ter nascido em 1969. E sou um sagitariano convicto, com ascendente em Peixes, Lua em Libra e Sol, Mercúrio e Vênus em Sagitário.

E, agora, cinquentão.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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