segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Estrada Velha da Tijuca ou Jardim das Delícias Terrenas





"Hoje eu vou servir o vinho. Hoje a noite é minha. Hoje consigo. Claro que consigo."

A inveja pode suscitar sentimentos e reações curiosas. Uma delas afligia C. A vingança. O sentimento é normal, eu sei. O curioso é o fato que ninguém além dele saberia ou reconheceria o ato como vingança.

F. tinha um compromisso. Ficou sabendo quase sem querer, por amigos comuns. Os adjetivos que lhe passaram pela cabeça não podem ser transcritos aqui sem as devidas tarjas pretas exigidas pelo estatuto de crianças e adolescentes.

Se mordeu ao pensar em outros olhares atingindo o corpo de F. Quão ousados eram tais atos? Não de quem era olhado, mas de quem olhava. Malditos olhares. A ousadia de F. era deixar-se tocar por mãos alheias. Sabia de sua predileção pelas mãos alheias. Já havia visto uma vez e não gostava de relembrar.

Sua vingança já estava decidida. A vítima, não. Ainda não.

Voltemos ao vinho. Duas garrafas já haviam sido servidas. Logo após pegar a terceira na copa improvisada, sentiu um olhar acompanhando seu trajeto. se virou para confirmar as suspeitas. Enfim. Poderia enfim conferir a atração dos hormônios da adolescência pelo álcool.

Na pista de dança era mais fácil disfarçar encher copos e não taças. Cada gole, um olhar. Cada nova dose, um leve esbarrão nas costas, quiçá nas coxas. C. estava feliz com o progresso. E fantasiava F. com as mãos alheias. Muitas mãos alheias. Que só seriam apaziguadas com a distribuição do vinho.

A festa se aproxima do fim; as fotos iluminam a pista de dança enquanto os passos de valsa longamente ensaiados distraem os convidados; poucos ainda se interessam pelo vinho. Mas a última garrafa tem destino certo. De tantas doses, o toque nas costas - quiçá nas coxas - já é facilmente reconhecido. O convite ao pé do ouvido se torna irresistível.

O jardim escondia algumas delícias terrenas, mas só aquelas que os convidados faziam escondidos nas sombras e dos olhares que também não queriam ser vistos. 

Sem o paletó podia se passar por um dos convidados. Assim queria ser visto agora. Beber da garrafa pelo gargalo lhe facilitou baixar a calcinha e levantar a saia (não nessa ordem). Nessa idade bastavam palavras chulas do funk do momento para parecer romântico. Cheirou a mão (seu irmão dizia ser rodrigueneano; apesar de duvidar por desconhecer a citação, resolveu experimentar. E não tinha bigode ainda para tentar a outra coisa). Guardaria na memória a tríade cheiro, vingança e defloramento. Deixou-a lá com a garrafa e a vergonha. Tinha que voltar a trabalhar. As garrafas inteiras e os cacos precisavam ser recolhidos. A festa estava por acabar.

Ter dois anos a mais que a aniversariante O fazia feliz. Não poderia ser acusado. E teria tido sua vingança.

Se F. ao menos soubesse.

Ou se importasse.

Leandro Faria  
Seu Gui do Armazém é o alter-ego de Gleison Santos. Ou talvez seja o contrário. Quem poderá saber?
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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