quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O Pornô Que Virou a Cultura Brasileira




Quando soube que os cartazes de filmes nacionais haviam saído das paredes da Ancine, eu ri. Só poderia ser mais uma mentira, das tantas que recebemos nos últimos anos em grupos de WhatsApp ou através de Twitter, Facebook e até contas de Instagram. Mas fui inocente em pensar nessa alternativa e dar, para o que vem acontecendo no nosso país, o benefício da dúvida. 

Os pôsteres saíram, uma sessão de A Vida Insivível, filme que concorre uma indicação ao Oscar 2020, não aconteceu para funcionários do governo e por aí vai. Nada disso chega a arrepiar minha espinha e me assombrar. Já esperava por "algo" assim contra a cultura. Afinal, se algumas guerras ensinaram alguma coisa, com toda certeza a primeira lição foi destruir a cultura e todas as suas possibilidades. 

Li uma declaração do Wagner Moura, cujo filme Marighella enfrenta entraves burocráticos para chegar aos cinemas, sobre a "nova forma" de censura, diferente de 64, quando era dito o não para uma obra audiovisual. Agora, as leis são usadas como escudo para liberação ou não de um simples filme. Mas mesmo nesse jogo de xadrez, uma mensagem subliminar consegue chegar até os mais "simples": se não querem que eu veja, deve ser importante. É quase igual essa propaganda que os religiosos estão fazendo, de graça, sobre o especial de Natal da Netflix com o Porta dos Fundos... 

Entre os milhões de comentários que li, lembrei de algo que aconteceu recentemente, no lançamento de O Rei Leão, Vingadores Ultimato, Homem-Aranha e até mesmo com Coringa. Os filmes, em suas versões clandestinas, acabaram ganhando o mundo, mas lá no XVídeos (famoso site de conteúdo adulto). E aí que mora toda ironia: a cultura está sendo vista como algo indecente, que deve ser jogado para debaixo do tapete, assim como acontece com o sexo. Nosso país é o maior consumidor de vídeos com travestis, mas também o mais arriscado para essa mesma população... Ou seja, nos tornamos uma boa e velha paródia de uma história não finalizada de Nelson Rodrigues, onde a família de bem precisa manter sua imagem para todos mas, à noite, de tudo acontece. 

O problema não está no filme do Marighella, assim como também não mora com A Vida Invisível. O problema está nas pessoas não entenderem que todos estão sendo prejudicados, que a vitória "deles" é muito mais de fora daqui do que nossa. Estamos todos perdendo, mais e mais a cada dia... Lembrando que 2019 ainda não acabou. 

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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