quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Preferidos do Barba: Melhores Filmes de 2019





2019 foi um ano muito intenso para o cinema. Começou com uma expectativa imensa pelo novo filme dos Vingadores (Ultimato) e está terminando com outra tão grande quanto, com o derradeiro episódio de Star Wars (A Ascensão Skywalker). No meio disso tudo, muita coisa boa chegou até as telonas brasileiras: teve novo do Almodóvar (Dor e Glória), Tarantino (Era uma vez em... Hollywood), Jordan Peele (Nós) e Scorcese (O Irlandês); teve os live actions de Aladdin e Rei Leão, que aqueceu os corações dos saudosistas; teve Kleber Mendonça Filho arrebentando com Bacurau (embora tenha sido uma exceção no cinema nacional esse ano); teve Joaquin Phoenix brilhando como Coringa e Taron Egerton como Elton John; teve filme coreano (Parasita) arrebatando crítica e público no apagar das luzes de 2019. Enfim, opções não faltaram...

Mas nem tudo foram boas notícias para o cinema em terras tupiniquins. Nota triste para a dificuldade na realização do Festival do Rio (normalmente entre setembro e outubro, só conseguiu ser colocado na rua em dezembro, sem apoio público). Também para a retirada dos cartazes dos filmes nacionais da sede da Ancine e o aviso de que haveria interferência política na nova gestão da agência. Como mencionei acima, tirando Bacurau, o ano foi mais de desafios e buscas de soluções do que de conquistas em nosso país. Vamos torcer para em 2020 vivermos tempos melhores e, enquanto isso, vamos dar aquela conferida nos escolhidos dos barbudinhos do Barba em 2019:

Rocketman

Eu pouco sabia da vida de Elton John. Conhecia apenas algumas de suas obras e seu estilo espalhafatoso, e nem sou tão fã de filmes biográficos. Não fui ver Bohemian Rapsody, por exemplo. Mas algo me chamava pra conferir Rocketman. Não só não me arrependi, como avalio que foi o melhor filme a que assisti em 2019. E olha que foi um ano rico, com outros queridinhos também, como Coringa, Bacurau e obras dos meus maiores ídolos atuais do cinema, Era Uma Vez Em... Hollywood, de Tarantino, e Dor e Glória, de Amodóvar.

Dirigido por Dexter Fletcher, Rocketman tem seu ponto de partida numa sessão coletiva de terapia da qual Elton John, já aclamado e no auge dos seus problemas com droga, fama e relacionamento, participa com outros anônimos. A forma como o roteiro nos conduz pela vida do astro, mostrando como ele se tornou o grande ícone pop que conseguiu desbancar fenômenos do topo de vendas, como Beatles e Elvis, é deliciosa. Elton é mostrado em três fases, na infância, na pré-adolescência e já adulto, encarnado pelo brilhante Taron Egerton. Taron, um ator galês de musicais, faz o papel de sua vida e realmente parece ter nascido para ele. O próprio Elton John não se cansou de repetir que ele só se imaginava sendo vivido por Egerton, inclusive o tendo chamado para dividirem palcos algumas vezes após o lançamento do filme.

Com um olhar completamente sensível para a vida de Elton John (sem se aprofundar muito nas fases mais recentes), Rocketman sintetiza em seu título exatamente aquilo que o cantor demonstrou ser: um homem-foguete, sempre a mil, voando, mas que também poderia explodir a qualquer momento. E nos fala de reencontros necessários com nós mesmos e de perdão, ainda que (e principalmente) em momentos de dor. Um acerto do início ao fim.

Bacurau

Em 2019 o cinema viveu um ano de hypes. Tivemos Coringa recebendo todo tipo de elogios; Parasita sendo ovacionado por grandes competições da sétima arte; Us colocando o nome de Jordan Peele entre os mais importantes diretores de cinema da atualidade; e tivemos Bacurau. O grande grito do cinema nacional. O que muitos poderiam considerar como um grito de socorro, vejo como um urro antes de uma batalha de vida ou morte. 

Sem grande estardalhaço, Bacurau conseguiu se manter durante boa parte dos últimos meses chamando atenção do público brasileiro. Sem grandes promoções na televisão, espaço em outras mídias, o povo estava curioso e indo ao cinema para se assistir. Conhecer Bacurau. Se reconhecer em Bacurau

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fizeram um filme necessário em todos os sentidos. Mostrou que o interior do Brasil não é tão diferente da metrópole, talvez só a paisagem que mude, mas o comportamento humano se mantém o mesmo. O instinto básico de sobrevivência acaba sendo primordial. Estamos todos tentando sobreviver de alguma forma, não é mesmo? 

Caso ainda não tenha assistido esse filmaço, aproveite que já está disponível para aluguel online e assista essa maravilha. Esteja preparado para tudo, inclusive olhar um espelho durante toda a sessão.

Nós (Us)

O ano de 2019 foi, talvez, o que me fez mais sair de casa para ir ao cinema, mesmo com todo o cardápio oferecido pela Netflix, na comodidade do meu sofá. E não saí decepcionado na grande maioria das vezes. As produções capricharam. 

Cito aqui seis filmes que me causaram as maiores surpresas e que por dias continuaram reverberando em meu cérebro: Bacurau, Parasita, Rocketman, Nós, Coringa e Dor e Glória. Seis EXCEPCIONAIS longas que certamente ainda serão laureados pelas premiações que estão por vir, como Critics Choice Awards, MTV Movie Award, Prêmio do Sindicato dos Atores, Globo de Ouro e Oscar. 

Mas entre esses seis, precisei escolher um deles. Então fui pelo critério da película que mais me causou espanto e estranheza. Fiquei tão chocado que resolvi assistir novamente e então poder apreciar com mais precisão, detalhes surpreendentes. E esse filme foi Nós, de Jordan Peele, que já tinha nos presenteado com o ótimo Corra! em 2017. 

Nós tem uma série de metáforas sobre a política e a sociedade atual. No contexto, é muito semelhante ao que foi mostrado no sul-coreano Parasita, de Bong Joon-hoo. Protagonizado pela ótima Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss e Tim Heidecker, o filme conta a história do casal Adelaide (Nyong’o) e Gabe (Duke), que viaja com o casal de filhos para uma casa de veraneio e lá são surpreendidos com uma cópia de sua própria família com comportamentos psicopatas e se tornam reféns de seus próprios clones-vilões.

Há metáforas em vários sentidos diferentes, que vão desde o lado mau que existe em nós, a crueldade das redes sociais e a viralização das ideias, as classes negligenciadas pelo governo relegadas à base da pirâmide social, a polarização dos discursos evidenciada pelo governo Trump, o medo do outro e a hipocrisia existente em uma sociedade paranóica e à beira do colapso, que vive de aparências. Sem dúvidas, o filme do ano!

Parasita (Gisaengchung)
Por Leandro Faria

Como vi filmes bons em 2019. Seja nos cinemas ou nos serviços de streaming, a sétima arte se mostrou criativa, provocante e, principalmente, necessária em um ano em que a extrema direita atacou a arte em geral de maneira agressiva e descabida. Talvez pelo peso que a arte tenha na formação de cidadãos críticos e pensantes - o que não temos visto ao redor, ao observarmos os vermes que saem dos esgotos e ganham eleições e fazendo eco em seus iguais eleitores.

E fiquei muito dividido entre pelo menos três grandes e inquietantes filmes desse ano para apontar como o meu preferido. Porque sim, BacurauCoringa Parasita mexeram comigo de maneira semelhante, ao contar histórias diferentes, mas que me causaram desconforto, me provocaram a minha percepção sobre o mundo real. Mas acabei optando por Parasita, pela forma audaciosa que seu diretor, o coreano Bong Joon-ho, conta sua história e nos cativa, brincando com os gêneros e terminando sua jornada de maneira impactante e assustadora.

Assim como Bacurau (e dá pra traçar inúmeros paralelos entre o mais falado dos filmes brasileiros de 2019 e essa obra coreana), é melhor assistir a Parasita sem saber absolutamente nada a respeito de sua história. Assim como o brasileiro, o filme vai nos pegando aos poucos, enquanto subverte a forma tradicional de se fazer cinema.

Estranho, divertido, tenso, assustador, inquietante. Parasita é tudo isso e, para mim, o melhor filme de 2019.

Coringa (Joker)
Por Julio Britto

2019 foi um ano de filmes para se pensar. Coisa que, aliás, foi feita muito poucas vezes pela população brasileira e de alguns países do mundo. E Coringa, foi um deles.

Esqueçam aquela máxima das histórias em quadrinhos, onde simplesmente o vilão fazia vilanias para que o super-herói possa salvar o planeta. Coringa colocou seu antagonista mais famoso, Batman, de lado e tomou ares de protagonismo. Contudo, toda essa atenção tinha um quê de reflexão real e humana subliminar. E isso causou muito incômodo. Em tempos onde a cultura, principalmente a audiovisual (carro-chefe de nosso século), nos traz uma proposta pensante do que somos, do que representamos e do que causamos com nossas atitudes, Coringa se torna o vilão dos manipuladores da realidade. Dos que querem acabar com essa fonte de saber, esclarecimento e inteligência. 

A questão é: você pode optar em não ser manipulado e acordar do transe ou continuar sendo uma massa de manobra para atingir objetivos que, no fundo, não são os seus, mas de quem o usa para chegar a estes fins. No final, percebemos que, de um lado ou de outro, somos todos palhaços. Vá de coração aberto e deixe-se impregnar pela mensagem do filme. Se você estiver realmente aberto a isso, sairá da sala de cinema repensando todas as suas atitudes.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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