sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Preferidos do Barba: Personalidades de 2019





Ser escolhido como personalidade nos dias de hoje não é uma tarefa fácil. Ouso dizer que dependendo da perspectiva, pode até ser considerado um título ingrato, já que em tempos sombrios, onde somos cercados por um certo emburrecimento social, alçar alguém como destaque pode ser proveitoso ou ser um grande tiro pela culatra. 

Como bom apreciador de Nelson Rodrigues, sempre concordei que a unanimidade era burra e, portanto, a discordância sempre fez parte da minha linha de pensamento. O que me assusta hoje em dia é a falta de consenso. Os rachas extremistas (e completamente imbecis e acéfalos) só estimulam o ódio em um cenário onde atira-se primeiro e questiona-se depois. E neste contexto, políticos, artistas e formadores de opinião precisam estar preparados para o devido e inevitável linchamento que pode vir virtualmente ou, literalmente, em plena praça pública simplesmente por terem ousado quebrar paradigmas ou por terem enfrentado uma resistência.

Na listinha dos colunistas do Barba Feita está uma pequena mostra do que acabei de explicar nesta introdução. Até mesmo ícones consagrados precisaram ratificar opiniões perante à opinião pública.

Glenn Greenwald 

Glenn é escritor, advogado e jornalista norte americano e vive no Rio de Janeiro desde 2005. Casado com o deputado federal David Miranda, adotou dois meninos alagoanos. Só por esse fato, já seria perseguido. Em 2013, através do jornal britânico The Guardian, Glenn, em parceria com o jornalista Edward Snowden, publicou uma reportagem sobre o programa secreto de espionagem da Agência de Segurança Nacional americana, ganhando o Pulitzer de jornalismo e o Esso por artigos publicados no Brasil. O caso chegou até os cinemas, ganhando inclusive o Oscar de Melhor Documentário, em 2014.

E, durante o ano de 2019, o nome de Glenn nunca esteve tão comentado. O periódico The Intercept (fundado por ele em 2013) iniciou uma série de matérias sobre um vazamento de conversas no Telegram entre Sérgio Moro e o promotor Deltan Dallagnol no contexto da Lava Jato, com sugestões de que Moro cedeu informações privilegiadas à acusação, auxiliando o MP, orientando e combinando ações com a promotoria e sugerindo modificações nas fases da operação da PF.

E, claro, depois disso foi alvo de ameaças do governo federal e de seus simpatizantes, incluindo ameaças de morte. O direito da defesa do direito constitucional à liberdade nunca esteve tão frágil. Recentemente, Glenn chegou a ser agredido em um programa de rádio pelo jornalista Augusto Nunes, em um episódio lamentável.

Como expliquei, não é uma tarefa fácil ser personalidade e, no caso deste jornalista que, certamente ainda possui um farto material com potência assombrosa de uma bomba atômica por vir, a sua coragem merece, sem dúvida alguma, minha indicação. 

Phoebe Waller-Bridge

Fora do Brasil, uma série de televisão é avaliada, inicialmente, pelo nome de seu showrunner, a pessoa responsável por fazer uma série acontecer. E alguns nomes significam qualidade ou, pelo menos, garantem o interesse do público. O que explica o valor a peso de ouro pago a nomes como Shonda Rhimes e Ryan Murphy, apenas para citar dois exemplos. E, em 2019, um nome inglês e pouco conhecido passou a fazer parte desse grupo milionário de criadores de histórias para a TV: Phoebe Waller-Bridge.

Foi em 2019 que o mundo se rendeu a Fleabag. Criada e protagonizada por Phoebe, a série, que teve uma primeira temporada que passou despercebida em 2016, voltou com tudo em 2019, ganhando os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Direção, Melhor Atriz Principal e Melhor Série de Comédia no Emmy desse ano, desbancando inclusive aí a última temporada de Veep, a grande promessa da premiação. E assim, o mundo reverenciou essa mulher brilhante e que, juro, queria que fosse minha amiga.

Além de Fleabag, Phoebe é também produtora e roteirista de Killing Eve, outra série que encantou o público. Em desenvolvimento para a HBO, Phoebe trabalha na história de Run, que contará com Domhnall Gleeson e Merrit Wever no elenco, e é uma das roteiristas do novo filme de James Bond, 007: No Time to Die.

Para coroar ainda mais o sucesso de Phoebe em 2019, logo depois de ganhar o Emmy por Fleabag, foi anunciado que a Amazon assinou com ela um contrato milionário (fala-se sobre a cifra de US$ 20 milhões por três anos) para criar conteúdos exclusivos para a plataforma de streaming.

Já Fleabag, a série sensação de Phoebe, parece realmente ter chegado ao seu fim. Ou, quase, já que a ela disse que contou toda a história que queria contar sobre a personagem, deixando apenas uma pequena e distante esperança para os fãs:
"Tenho o sonho de trazer Fleabag de volta quando eu tiver 50 anos." - contou por ocasião da assinatura do seu contrato com a Amazon.
Oremos. E esperemos.

Greta Thunberg

Greta Thunberg é uma ativista ambiental sueca, de apenas 16 anos, e ganhou notoriedade mundial em 2019 graças aos seus posicionamentos sem papas na língua. Thunberg e sua campanha foram duramente criticadas por políticos como o presidente americano Donald Trump e o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (duas figuras poderosas aos olhos do mundo, porém, sem qualquer comportamento de senso comum e compromisso com o ser humano de forma geral). Algumas críticas vieram também por órgãos da mídia, sob alegações de que ela simplifica demais as questões complexas envolvidas.

Falar sobre Greta me dá uma empolgação tão grande, que preciso me conter para não roubar o espaço dos meus colegas aqui nesta edição dos melhores do Barba.

Em Setembro de 2019, Donald Trump compartilhou um vídeo em que Thunberg falava sobre os líderes mundiais, juntamente com uma citação dela de que as pessoas estariam morrendo e que ecossistemas inteiros estariam em colapso. Trump escreveu sobre Thunberg, twittando:
"Ela parece uma jovem muito feliz, ansiosa por um futuro brilhante e maravilhoso. É tão bom ver isso!" 
A adolescente reagiu, alterando sua biografia no Twitter para corresponder à sua descrição e afirmando que ela não podia entender porque os adultos escolhiam zombar dos jovens apenas por se comunicarem e agirem conforme a ciência, quando poderiam fazer algo de bom. Ponto para Greta!

Agora, em dezembro de 2019, mais um gol: Thunberg twittou que os povos indígenas brasileiros estariam sendo, literalmente, assassinados por tentar proteger a floresta do desmatamento ilegal, afirmando ser vergonhoso que o mundo permanecesse calado sobre o tema. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (ferrenho defensor das políticas de Trump), respondeu que considerava impressionante como a mídia dava voz àquela “pirralha". No mesmo dia, Thunberg mudou sua descrição do Twitter, novamente, para "pirralha”. Goxxxto!!!

Este ano, Greta foi considerada personalidade do ano pela revista americana Time. Em nota, a revista afirmou:
“Ela conseguiu criar uma mudança de atitude global, transformando milhões de vagas ansiedades em um movimento mundial que pedia mudanças urgentes. Ela ofereceu um apelo moral para aqueles que estão dispostos a agir e lançou vergonha para aqueles que não o são.”
É ou não é um grande motivo para ser aplaudida de pé pelo “bonequinho do Barba Feita?

IZA

Alguém brilhou mais em 2019 do que IZA? Eu já falei um pouco sobre ela aqui no balanço do ano passado ao mencionar qual foi a minha música de 2018, Ginga. IZA é talentosíssima, inteligente, engraçada, humilde (tenho testemunhos de quem a conheceu pessoalmente, Brasil!) e, provavelmente, a mulher mais bonita do país atualmente. Além de ser engajada (só o clipe Dona de Mim fala muito sobre isso, ainda que de uma forma intimista com a sua história) e defensora da causa LGBT (marcando presença na música e em shows das drags Gloria Groove e Aretuza Love).

Em 2019, tudo o que IZA fazia parecia reluzir a ouro. Emplacou músicas em trilhas sonoras de novela, como Brisa, e viu Dona de Mim, mesmo mais baladinha, decolar. Ela entrou no The Voice Brasil, substituindo Carlinhos Brown, e já caiu nas graças do público. Dublou a versão adulta da Nala em O Rei Leão (função que coube a ninguém mais, ninguém menos que Beyoncé no original) e gravou a antológica música Nessa Noite o Amor Chegou. Participou do Rock in Rio com Alcione e fez todo mundo delirar no Palco Sunset cantando “Mas tem que me prender... TEM! Tem que seduzir... TEM!”. Em novembro, foi escolhida rainha de bateria da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, que foi rebaixada esse ano – ou seja, IZA vai desfilar na escola do coração muito mais por amor do que por oportunismo. Mais um golaço da deusa de ébano carioca. E pra fechar o ano, ainda gravou Evapora, com Major Lazer e Ciara, colocando a diva americana pra cantar português. Moral para poucos!

Fernanda Montenegro

Existem poucos nomes que conseguem ser um selo de qualidade. Fernanda Montenegro com toda certeza é o maior deles. É inegável que o Brasil possui atrizes incríveis. E, apesar das críticas, são as novelas que levam ao grande povo um pouco do cinema, teatro, literatura e poesia. Por ser popular, a novela, em sua forma e essência, acaba sendo desmerecida… Mesmo sendo ela que invade milhares de domicílios todas as noites, de segunda a sábado, não importando classe social e nem faixa etária. 

Aos 90 anos, Fernanda Montenegro ainda possui muito gás para ensinar muita coisa pra gente. Seja através de seus personagens ou de sua sabedoria de mãe, avó e artista. Afinal, 70 anos de carreira não é para qualquer um.

E, parafraseando essa dama, só me resta dizer uma coisa sobre 2019 e os anos que virão:
"Quando acenderem as fogueiras, quero estar ao lado das Bruxas!"
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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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