terça-feira, 2 de junho de 2020

O Copo de Leite





Juro que gostaria de acreditar que eles são um amontoado de inocentes.  Mas, infelizmente, a cada dia que passa, os fatos me apresentam a certeza do que muitos não querem enxergar.  Não se iludam, amigos, não se iludam.  E tentem entender de uma vez por todas que nada ocorre por uma simples coincidência ou acaso, pois tudo é milimetricamente pensado.  Tudo tem seu papel para criar a polêmica e desviar a atenção dos fatos que realmente importam. Tudo é enquadrado para que os intelectuais realmente percebam as reais intenções que estão por trás de tudo.

A analogia é notada por poucos.  Muito poucos.  E se esse bocadinho de gente gritar ou espernear, eles dirão que estão completamente loucos.  Isso gerará um debate nos principais jornais e dará caminho para a boiada passar.  Os que caíram no feitiço, ainda hipnotizados, agredirão e humilharão quem entendeu o recado. 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Valéria: Vale a Pena Conferir a Nova Série Espanhola da Netflix?





Quatro amigas com personalidades distintas e que se encontram em fases diferentes da vida, não é uma premissa inédita, mas é o ponto de partida para entender o universo da nova série da Netflix: Valéria

A personagem título sonha em ser escritora, tem pouco dinheiro em sua conta no banco e vive um casamento em crise, mesmo que essa ficha ainda não tenha caído... Nem para ela e, principalmente, para o seu marido Adrián (Ibrahim Al Shami J.), com quem é casada há seis anos. Enquanto Valéria (Diana Gómez) quer investir o tempo em seu livro, o marido quer que ela ajude a pagar as contas. Ela espera apoio, mas acaba recebendo pressão para arranjar um emprego.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O Brasileiro Médio





O brasileiro médio é viajado. Tem passaporte, conhece alguns países, visita museus e se acha culto. Viveu o boom econômico, andou de avião, construiu um pequeno patrimônio e tem orgulho de quem se tornou. Ou então nunca fez nada disso, mas age como se fizesse e se ressente muito por não ter tido esse tipo de experiência, porque se julga melhor que os demais à sua volta e um injustiçado pela sociedade.

O brasileiro médio se acha americano. Ama a livre economia, gosta de comprar e de gastar o suor de seu salário não se furtando de, algumas vezes, estourar seu limite ou parcelar à perder de vista para viver uma experiência ou ter realizado o seu sonho de consumo.

O brasileiro médio se acha rico. Com uma renda anual que não passa dos R$ 150 mil, tem pavor de imaginar a taxação de grandes fortunas e acha que o lucro das grandes empresas é dele. Defende a exploração sem perceber que ele próprio é explorado. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Mais um Carnaval Pra Conta!





Se eu pudesse, criaria um decreto: teríamos carnaval por 360 dias. Descansaríamos quatro ou cinco dias e numa sexta-feira qualquer, recomeçaríamos a festa, que seria incessante. O Carnaval é isso: uma festa que, apesar de oficialmente possuir cinco dias, a expectativa extrapola. É definitivamente a maior festa que temos. É o período em que retiramos as nossas máscaras e colocamos outras - aquelas que permitem que sejamos verdadeiros! 

Em cada esquina, os tradicionais baticuns se intensificam, assim como a morenice dos cariocas e a mistura dos sotaques na Babel dos trópicos. Carnaval é essa zona organizada dos bloquinhos, o furdunço do setor 1, local onde dividimos o espaço apertado, a cerveja, o sanduíche de queijo com presunto embalado no papel alumínio, os risos e as lágrimas com o amigo inseparável que você acabou de conhecer.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Não Se Leve a Mal, Mesmo no Carnaval...





Mais um início de carnaval e a história se repete: a festa continua dividindo opiniões. Há pessoas que morrem de amores pela folia e há aquelas que odeiam. Os motivos são muitos, para os dois lados. Não há como negar, porém, a importância que estes dias têm no calendário brasileiro.

Convencionou-se dizer que o ano só realmente começa, neste país, depois do carnaval. E, em parte, há verdade nisso. É preciso levar em conta, também, que esses dias são propícios para todo mundo: há uma infinidade de coisas que podem ser feitas – ou até mesmo não feitas – ao longo destes dias. Há maneiras de viver o carnaval para todos os gostos. Nas avenidas, nos blocos de rua, nos retiros religiosos e até mesmo nas maratonas de seriados que viraram moda nos últimos anos.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Divã: O Que Fazer Quando Ele Está Afim, Mas Não Me Convida Pra Sair?





Olá, Leco!

Há alguns anos um rapaz me adicionou pela internet e começamos a conversar. Por coincidência iríamos passar o carnaval no mesmo lugar e, uma vez lá, ficamos. Depois do carnaval ficamos conversando por muito tempo, mas como ele nunca me chamou pra sair, deixei pra lá fui viver minha vida e ele a dele. 

Alguns anos depois nos reencontramos novamente no carnaval. Ficamos de novo e todos comentavam que dava pra ver que ele é muito apaixonado por mim. Mas dessa vez, não perdemos o contato, conversamos TODOS OS DIAS (quase toda hora) e ele sempre parece muito apaixonado, diz que não quer me perder de novo e aquele discurso todo. PORÉM, ele nunca me chamou pra sair DIRETAMENTE, e eu não entendo o porquê, já que ele se mostra tão apaixonado. 

Então, qual a sua opinião? O que eu faço?
Mais Que Um Amor de Verão

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Silenciar é Uma Maneira de Deixar de Existir





Ano passado assisti a um espetáculo chamado Colônia, no Teatro Poeirinha, com texto escrito por Gustavo Columbini e apresentado como um monólogo, ou uma "peça-palestra", com atuação do ótimo Renato Livera. Apesar do texto não ser explícito, Colônia era inspirada em um episódio que ficou conhecido como o “holocausto brasileiro”: a história de um hospital psiquiátrico em Barbacena, onde, entre os anos 1960 e 70, aproximadamente 60 mil pessoas morreram. A grande maioria dos mortos torturados não possuía nenhuma doença mental – eram indivíduos indesejados pela sociedade ou que tinham um comportamento considerado “fora do padrão”: meninas grávidas, alcoólatras, prostitutas, homossexuais e alguns opositores políticos. 

Durante a apresentação, fiquei atento ao grande quadro-negro do cenário, onde o ator realizava várias anotações e registrava palavras que se entrelaçavam, vinculando a história do hospício ao passado do Brasil Colonial e sua herança de mortes. Especificamente em uma dessas associações, fiquei estático. Renato Livera escreveu “Brasil” e iniciou o processo de dissecação de sua estrutura e morfologia. A palavra vinha a partir da derivação “calor da brasa” e associou-se à cor vermelha da madeira utilizada para tingir tecidos que os portugueses encontraram no país – o pau-brasil e o “vermelho como uma brasa”.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Carta Aberta de Um Parasita






Prezado Sr. Ministro da República,

Ouvi dizer que, por meio de uma declaração pública sua, o governo brasileiro está quebrado porque gasta cerca 90% da sua receita (90% da receita total de um país é muita coisa!), com o funcionalismo público. Ainda, segundo a sua classificação, os funcionários públicos são parasitas, e que se torna urgente a aprovação da reforma administrativa ainda este ano, para que o dinheiro deixe de ser carimbado e chegue aonde realmente faz falta.

Caríssimo senhor Ministro, com todo respeito que o seu cargo requer, me permita lhe fazer algumas reflexões, ainda que as minhas palavras não lhe tragam o meu propósito ao expô-las. Em verdade, a palavra respeito é uma via de mão dupla, em qualquer tipo de relação, principalmente quando se trata de alguém que deveria zelar pelos preceitos na Constituição Federal, como lei maior de um país, do qual se é representante. E, por isso, eu, como funcionário público concursado, me senti extremamente desrespeitado e desprotegido, assim como as pessoas que aguardam o dinheiro público, citado pelo senhor, ser empregado onde deveria, mas não o tem, por força de desvios reiterados em gastos pessoais dos representantes do país.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Ordinária





Já perceberam a necessidade absurda que a maioria de nós tem de fazer a vida ser importante, magnífica e relevante? Que a nossa passagem pela Terra tem de ser essencial para a história do planeta, que precisamos ser únicos e com grandes realizações? 

Um geração inteira foi ensinada a achar-se mais do que efetivamente é e, por isso, vemos tanta frustração e ansiedade ao nosso redor. Todo mundo precisa mostrar o tempo todo que é foda, maravilhoso e necessário. Que está no mundo pra fazer a diferença e que precisa fazer a sua voz ser ouvida. Descobrir um objetivo vital para chamar de seu.

Spoiler pra todo mundo: então, não. Na maioria das vezes, o resto do mundo está cagando e andando para você e suas ambições. E o "você que lute" é na verdade um "acorda pra vida, meu bem!". Sabe o objetivo que tanta gente procura? Pois é, ele não existe.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A Arte Acima de Tudo – Alair Gomes e o Olhar do Desejo





Nelson Rodrigues certa vez disse uma frase que tenho usado como um mantra nos nossos dias atuais: “invejo a burrice, pois ela é eterna”. Infelizmente, essa constatação é algo que eu preferia não querer enxergar, mas não tem como. Estamos cada vez mais cercados de imbecis. Por todos os lados, proliferam indivíduos que cerceiam, destroem, achincalham e aviltam todos os lampejos criativos que porventura ainda teimam em surgir em meio à escuridão. A arte e a cultura nunca foram tão desvalorizadas. Mas é impressionante que, mesmo tão bombardeada, ela resiste, como se existisse um campo magnético que a destaca em um grande patamar inatingível, acima dos acéfalos.

Hoje eu quero começar uma série de textos que vão abordar alguns artistas já consagrados, mas que atualmente seriam denominados “degenerados”, como oficialmente eram chamados os artistas modernos, difamados durante o governo nazista na Alemanha. À época, Hitler mandou queimar livros em praças públicas, fechou a mais importante escola de arte de vanguarda – a Bauhaus - e destruiu diversas obras, além de prender e perseguir artistas e professores que não se encaixavam nas formas de arte aprovadas pelo governo. Entre obras proibidas havia quadros de Picasso, Max Ernst, Matisse e Segall. Abrindo aqui um parêntese, vimos isso acontecer de pertinho, com aquele surreal e assustador vídeo do ex-secretário de Cultura Roberto Alvim citando trechos do nazista Joseph Goebbels, ministro de Hitler.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Onisciente - Você Está Sendo Vigiado





No dia 29 de janeiro, entrou no catálogo da Netflix a série brasileira Onisciente, dos mesmos criadores de 3%. E como sua série "irmã", temos uma nova trama de ficção cientifica para chamar de nossa. A história é das mais interessantes: imagine uma sociedade em que a taxa de crime é tão baixa que não existe mais policiamento nas ruas, grades em janelas de casas e em portarias de prédio. Sim, essa realidade existe no novo enredo da Netflix. 

Mas a proteção possui seu preço: todos são observados por pequenos drones que possuem inteligência artificial e lêem o comportamento dos seus "vigiados". Fazendo com que qualquer tipo de furto ou assassinato seja prevenido antes mesmo de acontecer. Um sistema de vigilância sem furos... Ou não!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A Insanidade da Vez do Ministério Tupiniquim




Vésperas de Carnaval e, ao contrário do que eu vi a minha vida inteira ao longo dos meus 40 anos, esse é o primeiro que não vejo nenhuma campanha do Governo Federal que fale sobre métodos de proteção sexual. A atual campanha, encabeçada pela sem cérebro ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, é sobre (pasmem!) abstinência sexual! A ministra, que mais parece um meme de tantas asneiras que produz, negou que suas convicções religiosas a influenciem na defesa da abstinência sexual entre adolescentes. Aham, sei.

Segundo ela, o argumento que está buscando é: “uma menina de 12 anos não está pronta para ser possuída. Se vocês me provarem, cientificamente, que o canal de vagina de uma menina de 12 anos está pronto para ser possuído todo dia por um homem, eu paro agora de falar”, completando que essa era uma demanda da família.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Divã: Trair ou Não? Eis a Questão!




Não acredito que eu, a pessoa mais certinha que eu conheço, estou escrevendo um texto pro seu divã. Na verdade, não busco conselho e sim contar uma história e ler a opinião dos outros, porque nada como pessoas de fora da situação para dar opiniões sinceras, não é mesmo? 

Na época em que comecei a sair com meu marido, eu estava chateada por ter terminado um namoro (foram só 2 meses, mas eu gostava do cara). Inclusive, na época, até avisei que eu ainda estava na fossa por causa do ex, mas ele disse que era pra eu ficar tranquila, que ele era paciente... Então deixei a vida me levar e fui dando espaço no meu coração pra ele. Deu certo, afinal de contas, ninguém fica tanto tempo junto sem gostar, não é mesmo? 

Acontece que aquele ex volta e meia reaparece de alguma forma, seja por iniciativa dele ou até mesmo minha. Sempre eram apenas mensagens de papo furado, coisa que se conversa com qualquer conhecido. Mas toda vez que vejo uma mensagem dele, vêm as borboletas na barriga. Sabe aquela história de ex bom é ex morto? É.. Não aprendi... 

Um belo dia, nessa de conversar assuntos aleatórios, dei uma provocada de leve e ele provocou de volta. O assunto foi esquentando e, desde então, dormir cedo já não era mais uma realidade pra mim... Ficava esperando por nossos encontros virtuais de madrugada. Até que um dia combinamos de tomar um café pra conversar um pouco e rolaram uns beijos (ô beijo bom). 

Ele fala de marcar pra fazermos algo só nós dois mas, por mais vontade que eu tenha, acabo ficando com peso na consciência... Tadinho do meu marido, poxa... Mas, vou te falar, tá difícil segurar esse fogo todo... 

A parte boa é que quem está tendo que ajudar a "apagar o fogo" é o marido... Mas o que eu queria mesmo era o ex...
Casada em Chamas

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

1917 - Cinema com C Maiúsculo





Apesar de vivermos uma época totalmente voltada para o streaming, ainda sou fascinado pelo escurinho do cinema, tela gigante e cheiro de pipoca quentinha. Já quero deixar claro que amo a Netflix; e tenho absoluta convicção de que ela se agigantará ainda mais, pois o futuro é o streaming. Mas cinema é cinema, né? 

No fim da semana passada fui assistir 1917 e saí da sessão fascinado. Se analisarmos o filme em questão, ele tem um enredo até bem simples para os padrões hollywoodianos atuais. Mas tudo pode mudar e se tornar grandioso, dependendo da forma como é apresentada e contada. E esse é o grande mérito do filme, narrado a partir de um fragmento de um relato contado pelo avô do diretor Sam Mendes sobre Blake (Dean-Charles Chapman – que atuou em Game of Thrones) e Schofield (George Mackay), dois soldados britânicos que são enviados, através de um campo de batalha, para levar uma mensagem ao comandante de um regimento, cancelando um ataque aos alemães, que planejavam uma armadilha.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

1917 e A Lição de Não Desistir





Fim de mais um domingo, onde o cansaço me consumia por não ter aproveitado o fim de semana para descansar, acordando cedo mais uma vez. E, mesmo diante da quase desistência dos meus olhos em se manterem abertos, fui ao cinema para assistir ao filme 1917, indicado a 9 estatuetas do Oscar 2020, além de outros prêmios bem importantes da indústria cinematográfica mundial.

Quero ressaltar que, antes de mais nada, este não é um spoiler do filme que assisti neste fim de semana. Trata-se apenas de um paralelo que traço de tudo que vi nas telas com nossa realidade diária.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O Índio Negro, Marianalva, as Galinhas D'Angola, os Trovões, os Coriscos e os Redemoinhos





Como um índio negro posmoderno, posapocalíptico, ele atravessou a pista correndo com sua clava potente e suas meias listradas de vermelho e preto.

Os pés firmes batem no chão, mostrando autoridade. Os pés firmes anunciam sua presença provocando o barulho de trovão que assusta as gentes. Que anuncia que o corisco se formou na velha mata, riscando os céus e incendiando os nacos de capoeira próximos à grande pedra cor de fogo.

O movimento do andar mais uma vez agitou a ar e balançou as folhas das árvores à sua volta. Ninguém sentiu essa última rajada. Apenas algumas vacas e bezerros passavam por aquele ponto da estrada no momento. Lá ao longe, no entanto, havia uma janela aberta na velha casa dos Gonzaga. Não precisava muito esforço ou imaginação para saber quem estava lá, escondida atrás da velha cortina branca.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Atrás dos Pneuzinhos Existe um Cara Legal!





Dia desses debatíamos no grupo do WhatsApp do Barba Feita como são frequentes os casos de gordofobia, principalmente no meio gay. Tem gente que dá unfollow e block em gente gordinha ou que recentemente ganhou uns quilinhos a mais. O mundo gay vive em torno de corpos perfeitos e musculosos e eles mesmos criam um muro: se você não é sarado, é bear (ursinho). Tem muita gente que curte, eu sei. Inclusive existem várias festas temáticas direcionadas ao público bear. Mas, sinceramente, acho essa barreira muito escrota.

Sempre fui contra essa coisa de gueto. Antigamente, a praia de Ipanema era toda dividida dessa forma: tinha o pedaço das barbies, dos que curtiam uma erva, dos jiu-jiteiros héteros... Nem sei se ainda é assim, pois peguei tanto ranço que, quando nas raríssimas vezes que vou à praia só vou à Reserva ou ao Leme. Apesar de achar linda, passo longe da badalada Ipanema.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Vertigens





Assisti Democracia em Vertigem no dia 21 de junho de 2019, logo depois que ele entrou para o catálogo da Netflix. Li alguns comentários sobre o filme de Petra Costa e, inocentemente, apertei o play e fui, pelo olhar da diretora, relembrando de tantas coisas que levaram o Brasil a chegar onde chegamos. Em junho de 2019, o governo Bolsonaro tinha apenas seis meses e já era um estrago. No início de 2020, vivemos em um país desolado, governado por imbecis que são seguidos por uma manada que, apesar de não ser maioria, é barulhenta e ignorante. 

E, com a indicação ao Oscar de Melhor Documentário, Democracia em Vertigem volta aos holofotes. As chances de uma premiação efetiva pela academia são pequenas. O favorito na categoria, de acordo com sites especializados, é Indústria Americana (American Factory, no original), que tem a chancela do casal Obama na produção. Mas, a indicação do filme de Petra Costa já diz muito sobre o cenário mundial e de como o mundo enxerga o Brasil nesse momento.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Nova Ordem





Ainda bem cedo, os primeiros raios de sol anunciavam que o dia seria bem quente, deixando para trás as temperaturas amenas, que pareciam coisa do passado. O maçarico estava funcionando à pleno vapor, queimando as pedras portuguesas e, os primeiros moradores que ousavam fitá-lo, transbordavam em si mesmos. Os pássaros ainda estavam preguiçosamente silenciados quando a serenidade daquela avenida foi quebrada por um alarido, provocando a primeira grande revoada. Tremeram os bueiros, postes e seus emaranhados novelos. Com a potência de um trio elétrico, mandaram avisar que a Grande Cidade, a partir daquele momento, teria cinquenta dias de festa.

O alto brado percorria a grande avenida, enquanto revoadas descoordenadas rabiscavam o horizonte. Vagarosamente, as janelas se abriam revelando olhares de soslaio e alguns moradores questionavam: “como assim, cinquenta dias de festa?”. As comemorações haviam sido suspensas há dois anos, pois o Grande Senhor tinha ojeriza à folia. Desde então, a metrópole havia mergulhado em uma grande tristeza, um remanso sepulcral. Os dias tornaram-se mais curtos, a escuridão fazia parte do cenário da outrora Grande Cidade, que perdera sua cor natural, transformando-se como numa película expressionista, com as sombras dos indivíduos encrustadas nas paredes de suas vilas.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O Fim de uma Era




Não sei se você é do tipo que começa um papo falando sobre signo. Mas, acreditando ou não, quase todo mundo sabe qual zodíaco rege o dia de seu nascimento. Algumas vezes, isso até inclui  o ascendente, a lua e o meio do céu. É quase como saber qual é o nome do seu Orixá. Iemanjá e Oxalá possuem filhos a rodo.

Na semana passada aconteceu a primeira lua cheia do ano. E não foi só isso, tivemos também o primeiro eclipse. Ele aconteceu no signo de Câncer. Nada de revirar os olhos. Câncer não é tão ruim assim. Pelo pouco que li nos quinhentos perfis que sigo no Instagram sobre o tema, essa conjunção vai trazer mudanças. É o fim de um ciclo. Quase o término de uma era...

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A Ilusão das Redes Sociais



No último fim de semana, estive em um evento de família e, por causa dele, me peguei refletindo o restinho das últimas horas sobre como nos mostramos e como somos vistos nas redes sociais. Na verdade, não era um eveeeeento, mas um churrasquinho de fundo de quintal, regado a conversa fiada, gargalhadas, pagodes dos anos 90 e aquelas brincadeiras bobas com meus sobrinhos, que passavam longe dos atuais jogos eletrônicos. Para coroar o dia quente, no fim da tarde, caiu uma tempestade na zona oeste do Rio e aproveitamos para tomar banho de chuva e mergulharmos nas águas turvas da piscina de plástico que estava há dias sem ser lavada. Diante dos avisos para o risco de adquirirmos uma hepatite ou dermatite, meu pensamento se teletransportou para a minha infância, quando eu brincava descalço nas ruas, pegava girinos naquelas valas de periferia e dizia que eram peixinhos e voltava para casa no fim da tarde com os pés e joelhos russos de lama e poeira. 

Quem me vê nas redes sociais, como o “blogueiro super produzido” pode ter se espantado com os stories propositais que publiquei na mesma rede em que eu me mostro cheio de glamour.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Uma Relação Tão Delicada: Uma Peça Tocante





Toda relação possui seus altos e baixos e isso é incontestável. O amor não garante que uma relação será tranquila eternamente e, principalmente quando há sangue envolvido, é quase impossível não haver embates. Quando são mãe e filha no centro dessa relação então, a questão é ainda mais complexa e... delicada. 

Uma Relação Tão Delicada, que entrou em cartaz no Rio de Janeiro na última sexta-feira, dia 10/01, no Teatro Vannucci, aborda a relação de uma mãe e sua filha ao longo de mais de cinco décadas. Com idas e vindas temporais, mostrando recortes da vida e da relação das protagonistas, acompanhamos como cada uma vai de cuidada a cuidadora, ao mesmo tempo em que precisam lidar com o amor e com a forma que a outra recebe e percebe esse sentimento tão intrínseco à relação de mãe e filha.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O Velho Trauma da Infância Voltou





Já cheguei a comentar sobre esse assunto algumas vezes por aqui e, novamente, o tema ressurge. Quando eu era pequeno, eu tinha pavor de Ernesto Geisel, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Mikhail Gorbachov e do Aiatolá Khomeini. Eles sempre pareciam tão sisudos na televisão e o mundo vivia aquele clima contínuo de guerra iminente. O Brasil vivia o seu período ditatorial. A guerra do Vietnã tinha durado 20 anos e eu achava que por causa da Guerra Fria entre Rússia e EUA, e perigo da bomba atômica era terrivelmente real. 

Thatcher e aquele seu penteado Aracy Balabanian me causava calafrios. Era notória a sua popularidade entre os ingleses, principalmente com as ações que ela adotou para reverter as dificuldades que o país sofria, após a recessão. Mas ela me dava medo por causa de seu jeitão ogro de ser – não à toa era chamada de “dama de ferro”. Thatcher, que teve importância vital na Guerra das Ilhas Malvinas, manteve sua linha dura até 1990, quando renunciou.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Os Planos Que Ainda Nem Sei





2020 chegou! E, diferente dos últimos anos, não fiz uma lista de desejos. Eles existem aos montes, mas não enumerei cada um. Sei lá, podem me chamar de cético ou desconfiado até, só que decidi inovar: vou deixar os dias me levarem...

Isso não significa que não saiba exatamente o que quero. Tenho algumas prioridades no radar, só não pretendo criar o vício da cobrança ou aproximar o fantasminha da procrastinação. Quem nunca elaborou uma lista de desejos para o ano e nunca tirou nada do papel? Fiz várias vezes, aqui incluso.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Limpando as Lentes Para Enxergar o Novo Ano Que se Inicia








A coluna de hoje, pode ser considerada uma continuação do texto da semana passada, quando falei sobre o fim de mais um ano. Se o mês de janeiro fosse um objeto, poderia considerá-lo uma espécie de óculos ou lupa. Uma lente capaz de nos ajudar a enxergar a nossa realidade de forma mais clara. A realidade mais próxima de nós, dentro de uma infinidade de outras realidades, mas que, mesmo tão próxima, muitas vezes não a percebemos.

Janeiro, de alguma forma, nos ajuda a descobrir a realidade mais íntima que nos constitui: a dos nossos pensamentos, sentimentos, desejos, afetos, emoções e comportamentos. Ajuda a enxergarmos a realidade das nossas maneiras de ser, agir, sentir e pensar – do que verdadeiramente somos, podemos e sabemos. Em uma só expressão, a realidade do nosso “eu”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O Cheiro de Pipoca Que Me Transportou Para o Passado na Cozinha da Casa da Minha Avó





Nenhum dos meus avós continua vivo. Meu avô materno faleceu quando eu ainda era bem criança e tenho poucas lembranças dele. Minha avó materna morreu bem depois, quando eu já era adulto e ela já velhinha, chegando até mesmo a morar um tempo em minha casa com meus pais. Do lado paterno, meu avô e avó morreram quando eu já nem morava mais com meus pais. E trago boas recordações de todos eles, que sempre fizeram com que eu me sentisse amado e feliz.

Mas o que me motivou a escrever as linhas de hoje foi uma recordação muito viva da minha avó paterna. Foi quase como se ela estivesse ao meu lado durante a tarde de domingo enquanto, sozinho em casa, eu fazia uma enorme porção de pipocas para comer assistindo a um série. Engraçado como essas coisas nos marcam e ficam com a gente, mesmo muitos anos depois.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Nada Muda Se Você Não Mudar





Essa era uma frase que eu tinha estampada em uma camiseta da Alternativa (uma marca que não existe mais) nos anos 1980. Usei essa camiseta até ela rasgar. Adorava ela. Era a minha versão da que o Cazuza usava e que se tornou um ícone: Prefiro Toddy ao tédio.

Lembro que em todo réveillon, lá estava eu com a mesma camiseta. Minha mãe e minha avó brigavam comigo... “você vai usar essa roupa velha?”... Mas não me importava... A mensagem era sempre a mesma... Na passagem do ano, eu era o próprio outdoor

Nada muda se você não mudar.