sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Nova Ordem





Ainda bem cedo, os primeiros raios de sol anunciavam que o dia seria bem quente, deixando para trás as temperaturas amenas, que pareciam coisa do passado. O maçarico estava funcionando à pleno vapor, queimando as pedras portuguesas e, os primeiros moradores que ousavam fitá-lo, transbordavam em si mesmos. Os pássaros ainda estavam preguiçosamente silenciados quando a serenidade daquela avenida foi quebrada por um alarido, provocando a primeira grande revoada. Tremeram os bueiros, postes e seus emaranhados novelos. Com a potência de um trio elétrico, mandaram avisar que a Grande Cidade, a partir daquele momento, teria cinquenta dias de festa.

O alto brado percorria a grande avenida, enquanto revoadas descoordenadas rabiscavam o horizonte. Vagarosamente, as janelas se abriam revelando olhares de soslaio e alguns moradores questionavam: “como assim, cinquenta dias de festa?”. As comemorações haviam sido suspensas há dois anos, pois o Grande Senhor tinha ojeriza à folia. Desde então, a metrópole havia mergulhado em uma grande tristeza, um remanso sepulcral. Os dias tornaram-se mais curtos, a escuridão fazia parte do cenário da outrora Grande Cidade, que perdera sua cor natural, transformando-se como numa película expressionista, com as sombras dos indivíduos encrustadas nas paredes de suas vilas.

Na imensa floresta de concreto e ferro retorcido, reverberou a voz de uma mulher, ainda rouca pelo fato de ter despertado de seu sono momentos antes, mas de uma maneira intensa e ensandecida: “Atiçaaaaaaaaaaa!”.  Imediatamente, milhares de vozes se multiplicaram entre as luzes e sombras, como em um grande culto, enquanto o astro-rei tremulava sob o céu azul. O que era complacência, rapidamente tornou-se balbúrdia. Em poucos minutos, a avenida foi tomada por milhares de pessoas que, até então, estavam ocultas em seus próprios casulos. A aparência delas, no entanto, apesar de familiar, trazia uma certa estranheza no olhar, como se, da noite para o dia, tivessem sido substituídas. 

Naquela manhã, as principais lojas não abriram. O dia resplandecia como um feriado de verão. Não havia mais espaço para o trânsito. A principal rede de comunicação transmitia as imagens feitas por um drone, do fluxo de pessoas tomando as ruas, como sangue percorrendo artérias e veias. A Grande Cidade pulsava. Desde que as comemorações haviam sido suspensas, o Grande Senhor Supremo havia criado uma lei pregando a abstinência sexual, mas a partir daquele momento, os hormônios exalavam pelo calor dos corpos de uma maneira incontrolável. Cenas lascivas, alvoroço. Os sussurros já não eram mais ouvidos. Tampouco os gemidos. Gritos tomavam conta do lugar. Ninguém pertencia a mais ninguém. Nem a si mesmos. 

O caminho do excesso se transformou primeiro em grande tumulto. Não se soube ao certo como nem por que teve início. Um homem despido caiu ao chão logo após que um estampido ecoou. Estardalhaço. E o pânico se instalou. E a algazarra persistiu, durante horas e horas intermináveis. Ao cair da tarde, a selvageria se intensificou. As ruas, que ainda mantinham o mesmo estreitamento desde o Império, foram tomadas pelo pavor, estilhaços e sangue, que se misturavam ao asfalto ainda quente. Já não havia mais espaço para tantos, logo no primeiro dia de festa. A multidão tentava escalar as grades de proteção, sem sucesso. Já estavam exaustos e o torpor causado pelo ópio, álcool e ódio, faziam-lhes tombar. 

Alheio a tudo que acontecia ao seu redor, um homem permaneceu imóvel. Não estava morto, apenas dormia. Como uma espécie de Pietá sem um Cristo, apenas com um pedaço de pano maltrapilho sob seu corpo. O tecido, fino, era o único combustível que teria para enfrentar a gélida noite que se aproximava. Se estava conformado ou resignado, ninguém nunca soube ao certo, pois ele repousava, imóvel sob o chão imundo ao lado de seres rastejantes como se aguardasse a chegada do verdadeiro despertar. Não havia mais ordem, tampouco progresso. Mesmo assim, ele ainda aguardava. Como em um fim de uma peça teatral, as luzes começaram a reduzir sua intensidade na GranCidade, até apagarem definitivamente.
*Foto de abertura por Marcos Araújo
 Leia Também:
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: