sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Atrás dos Pneuzinhos Existe um Cara Legal!





Dia desses debatíamos no grupo do WhatsApp do Barba Feita como são frequentes os casos de gordofobia, principalmente no meio gay. Tem gente que dá unfollow e block em gente gordinha ou que recentemente ganhou uns quilinhos a mais. O mundo gay vive em torno de corpos perfeitos e musculosos e eles mesmos criam um muro: se você não é sarado, é bear (ursinho). Tem muita gente que curte, eu sei. Inclusive existem várias festas temáticas direcionadas ao público bear. Mas, sinceramente, acho essa barreira muito escrota.

Sempre fui contra essa coisa de gueto. Antigamente, a praia de Ipanema era toda dividida dessa forma: tinha o pedaço das barbies, dos que curtiam uma erva, dos jiu-jiteiros héteros... Nem sei se ainda é assim, pois peguei tanto ranço que, quando nas raríssimas vezes que vou à praia só vou à Reserva ou ao Leme. Apesar de achar linda, passo longe da badalada Ipanema.

Mas, voltando a falar dos gordinhos, acho que, na verdade, esse olhar enviesado não é direcionado somente a bears gays. Acho que, na verdade, o mundo atual estabeleceu um padrãozinho e todo mundo tem que se encaixar nele. E neste novo mundo, os gordinhos que lutem.

Sempre tive barriguinha, sempre fui comilão desde criancinha. Nunca fui magro, nem quando adolescente. Sempre tive horror de fazer exercícios. Educação Física, na época do colégio, era pior que tortura chinesa. Odiava jogos coletivos. Eu era sempre o goleiro, mas só engolia frangos, pois minha miopia não permitia que enxergasse a trajetória da bola. Assim como acontecia com a rede do vôlei ou a cesta no basquete. Portanto, só me restava nadar. E assim fiz por uns bons longos anos. Aí chegou a modinha das academias, que fiz durante um tempo, mas me sentia como aqueles hamsters correndo em suas rodinhas gigantes dentro da jaula. Ainda não consegui gostar de fazer. Sei que preciso, mas detesto.

Ser gordinho é um saco. Já tentaram comprar uma daquelas calças jeans na C&A? O mundo é skinny com pernas longilíneas. Eu, que tenho um batatão de perna que serve de outdoor, que use bermudas, então. Também tenho um pé fora do comum. Calço 45. Então, encontrar algo que presta é uma odisseia. O mundão masculino calça 42. Os pé-de-Frodo que usem chinelos com o calcanhar de fora.

Sou roqueiro, mas amo samba. E todo mundo acha essa combinação estranha. Amo Nina Simone e assisto Big Brother. Não faço distinção entre o erudito e o trash. E eu não sei dançar. Zero coreografia. Pior que bailarina perdida do Faustão. Levei 20 anos pra aprender “Olha a onda”, do Tchakabum, mas ainda sonho em aprender uns segundinhos da dança do passinho, apesar de achar que minhas gordurinhas vão provocar alguma síncope.

Ser gordinho é um saco. E a sociedade não permite meus pneuzinhos.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Márcia Pereira disse...

Senti-me totalmente representada! Sem mais, toda a minha admiração por você!

Unknown disse...

O mundo dividido em clubinhos, é entristecedor e efadonho ! Sem graça alguma, sermos rotulados e não podermos misturar as tribos e celebrar a diversidade. Calço 46, fiz muito esporte, mas a música me causou um sedentarismo bárbaro. Hoje, quando consigo vencer as barreiras desse pavor da violência e intolerância para sair de casa, para assistir shows, saraus, coletivos artísticos e musicais, já me sinto bastante feliz por me presentear. Maravilhoso artigo, como sempre nos representando tão bem ! Parabéns, querido ! 🙏🏻❤🌎🙌🏼 gratidão ! 😘