segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O Cheiro de Pipoca Que Me Transportou Para o Passado na Cozinha da Casa da Minha Avó





Nenhum dos meus avós continua vivo. Meu avô materno faleceu quando eu ainda era bem criança e tenho poucas lembranças dele. Minha avó materna morreu bem depois, quando eu já era adulto e ela já velhinha, chegando até mesmo a morar um tempo em minha casa com meus pais. Do lado paterno, meu avô e avó morreram quando eu já nem morava mais com meus pais. E trago boas recordações de todos eles, que sempre fizeram com que eu me sentisse amado e feliz.

Mas o que me motivou a escrever as linhas de hoje foi uma recordação muito viva da minha avó paterna. Foi quase como se ela estivesse ao meu lado durante a tarde de domingo enquanto, sozinho em casa, eu fazia uma enorme porção de pipocas para comer assistindo a um série. Engraçado como essas coisas nos marcam e ficam com a gente, mesmo muitos anos depois.

Fui o neto mais velho dos pais do meu pai. E, ainda por cima, sempre moramos muito próximos - precisamente, na casa ao lado deles. E, ao crescer no interior, minha avó era meio que aquela avó desbocada e divertida, de risada alta e que sempre defendeu os netos - meu primo, meu irmão e eu primeiro; depois, quando já estávamos quase na adolescência, meus outros dois primos gêmeos, os queridinhos da família e que chegaram por último. 

Eu, por ser o neto mais velho, me sentia super especial. E sabia o quanto minha avó gostava de me mimar, com seu jeito protetor e querido. E nunca vou me esquecer de um hábito que ela e eu desenvolvemos durante boa parte da minha adolescência, quando eu saia da minha casa no meio da tarde e pedia que ela fizesse pipoca, que ela fazia em quantidade e me dava em uma bacia enorme. 

Como já disse, éramos vizinhos. Eu estudava pela manhã e ficava de bobeira durante toda a tarde. Enquanto a maioria das crianças da vizinhança brincava na rua o dia todo, eu nunca fui desse tipo. Até socializava, mas gostava muito do meu mundinho, de ficar em casa lendo ou vendo TV. E a rotina era exatamente essa: acordar, ir para a escola, voltar, almoçar e passar a tarde fazendo nada, naquele tédio sem fim de uma vida no interior que, naquele tempo, parecia se arrastar sem nenhuma pressa.  E nessas tardes, pelo menos uma vez por semana, eu ia até a casa da minha avó, a tirava de sua soneca e pedia: "Vó, faz pipoca?"

E ela fazia. A panela grande, o fio de óleo, os grãos de milho, o pop pop pop da pipoca nascendo do calor. E um neto feliz, que voltava com a grande bacia de pipoca para comer enquanto via a programação da TV aberta dos anos 90 na parte da tarde. 

Ao fazer a minha pipoca nesse domingo para acompanhar a minha maratona da vez na TV, todas essa lembranças invadiram a minha mente, com uma força poderosa e uma grande saudade que tomou conta do meu coração. E me senti feliz. Pelos pais que tenho, pela minha família, e por ter tão boas recordações para me alegrar tantos anos depois.

A pipoca desse domingo foi especial. Porque eu me vi na cozinha da minha avó. E o sabor foi o da mais deliciosa nostalgia...

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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