segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O Índio Negro, Marianalva, as Galinhas D'Angola, os Trovões, os Coriscos e os Redemoinhos





Como um índio negro posmoderno, posapocalíptico, ele atravessou a pista correndo com sua clava potente e suas meias listradas de vermelho e preto.

Os pés firmes batem no chão, mostrando autoridade. Os pés firmes anunciam sua presença provocando o barulho de trovão que assusta as gentes. Que anuncia que o corisco se formou na velha mata, riscando os céus e incendiando os nacos de capoeira próximos à grande pedra cor de fogo.

O movimento do andar mais uma vez agitou a ar e balançou as folhas das árvores à sua volta. Ninguém sentiu essa última rajada. Apenas algumas vacas e bezerros passavam por aquele ponto da estrada no momento. Lá ao longe, no entanto, havia uma janela aberta na velha casa dos Gonzaga. Não precisava muito esforço ou imaginação para saber quem estava lá, escondida atrás da velha cortina branca.

As galinhas d'angola correm para ciscar próximas das folhas que caíram ao fundo do quintal na esperança de acharem alguma manga ou goiaba, verdes que fossem.

Marianalva não saía muito de casa e, quando o fazia, estava sempre em companhia da mãe. Desde há muito tempo não eram vistas. As distâncias e a velha estrada de terra batida e a lama - geralmente comum naquela época do ano - faziam com que longe fosse um adjetivo (ainda mais que um advérbio) recorrente.

O vigário da vila próxima havia liberado a família de ir à missa todas as semanas. Os três não gostavam disso, mas era o possível fazer naquelas situações. Apenas muitos anos para frente um primeiro carro seria capaz de desbravar aqueles caminhos ermos e iluminados pela lua e os olhos dos animais dos pastos e os vagalumes eventuais. A mãe se ressentia da falta da hóstia - não era possível consagrá-la na pequena capela -, Marianalva gostava de ver as outras moças e seus vestidos de chita mais colorida que os que vestia, e o pai precisava saber das notícias do mundo que ficava a uns 50 quilômetros - mas muitos dias - dali e comprar mais cachaça que sempre acabava antes que o previsto - coisas da mãe precavida.

Sentindo-se uma eterna pecadora, Marianalva cresceu. Os momentos de confissão eram esperados com ansiedade. Também pela oportunidade de conversar com um outro homem que não o pai. Mais esperados ainda eram os dias da festa de 3 de maio. As luzes do pequeno parque de diversões montado em frente à igreja, o eventual e bissexto circo. A expectativa de ver o palhaço e rir com suas trapalhadas, imaginar todos os lugares que os ciganos - como imaginava ser a família que cuidava do circo - haviam passado durante o tempo que estiveram fora, conversar com as outras garotas de sua idade, ver novamente as antigas revistas de moda, dormir na velha cama da casa paroquial em vez de na sua, ver a mãe sorrindo, não ver o pai com frequência - mesmo que por pouco tempo.

A janela da casa era a visão mais recorrente de seu mundo. Com a casa sobre os alicerces fortes e elevados, sua visão alcançava até a velha estrada. E podia permanecer se quisesse longe da vista dos raros outros, atrás das velhas cortinas brancas bordadas com delicadeza pela mãe.

O pai dizia que estava já na idade de casar. Não sabia direito o que isso significava, mas sonhava todo dia à noite sob a luz tênue das velas e lamparinas com o marido que o pai escolheria.

Foi em um dia de muita chuva, daquelas pesadas de verão, que o pai deixou de comandar as rédeas da casa e do velho sítio. Nada puderam fazer contra a febre que o acometeu. Em seu delírio dizia ser culpa do 'crioulo safado' que lhe vendeu a cachaça da última vez.

Caro leitor, eram outras épocas, me desculpe, mas para o bem da história convém manter essas palavras duras e estúpidas. Naquele tempo ainda não havia correção política nem - aparentemente - bom senso coletivo. Nem ao menos as gentes daqueles confins seriam capazes de saber de alguma lei com nome de famoso, já era muito acreditar em leis áureas... Como a história é mais importante que o seu apreço a mim, manterei o registro do pensamento delirante - mas não inventado ou recente - dessa pobre pessoa. Os adjetivos proferidos à porta do alambique eram muito piores - acredite.

Combinaram de pedir ao padre que rezasse uma missa quando fossem à vila. A mãe se sentiu mal por dias, pensando ser sua culpa por tê-lo deixado beber menos que de costume daquela vez. Não sei se por isso, mas um dia, no caminho para deixar uma flor no seu túmulo, parou para alimentar as galinhas d'angola. Não a entenda mal, caro leitor. Eram tantos anos de convívio que a privação lhe parecia a regra normal. Dispa-se de suas preconcepções.

Marianalva a encontrou algumas horas mais tarde. Tinha o semblante sereno. Parecia dormir. E assim ficou até o dia seguinte. Sem saber o que fazer, fez o mais digno que poderia. Em vez de levar flores, plantou uma roseira e um copo de leite sobre os dois. A mãe sempre dizia que tinha o dedo verde. Fez um cercadinho para que as galinhas d'angola não estragassem o pequeno jardim improvisado. Ainda teria que pedir ao padre que rezasse a missa.

Muitos estranharam a ausência dos três na festa daquele ano. O padre ficou chateado. Havia conseguido um pretendente, rapaz trabalhador e religioso, bem ao seu gosto, de família séria que sempre contribuía com uma prenda nos leilões das quermesses. Ao final do terceiro dia já estava preocupado. Prometeu ir visitá-los logo após a volta da posse do novo bispo da diocese.

O índio negro posmoderno, posapocalíptico, de meias listradas de vermelho e preto passou pelo estreito caminho que levava direto ao alpendre da velha casa dos Gonzaga. Sim, caro leitor, essa história ainda é sobre ele, não se engane. Se estiver já de má vontade, duvidando que haverá algum final digno, ao menos - por favor - considere que a história também é sobre ele.

Não causou o vento costumeiro neste trecho. Não gostaria de assustar Marianalva. Na verdade, sempre a visitava. Ficava de longe observando-a observar seus domínios. Depois das primeiras visitas decidiu produzir sempre um pequeno redemoinho de ar próximo à última tronqueira, a que delimitava o quintal. Com o tempo, pôde perceber o sorriso tímido que isso lhe causava. Mas hoje foi diferente. Não houve sorriso, não houve Marianalva. Achou estranho. Havia muito não passava por aquelas terras. Na última vez estava irritado, causou uma grande chuva de alguns dias. A grande pedra cor de fogo permaneceu encoberta por várias horas, poucos conseguiram ver os coriscos e nenhum resto de capoeira pegou fogo. Foi a última grande chuva do verão.

Os pés sempre firmes, por um breve momento, cambalearam. Encontrou Marianalva sobre a cama, parecia dormir. Próximo dali, na cadeira próxima à cabeceira, o vestido de festa. Se inclinou e uma leve brisa pareceu passar pelo corpo dela. Os olhos se abriram - timidamente - e pôde ver novamente o sorriso que o cativou. Pela primeira vez em muito tempo também sorriu. Retribuiu o gesto e deram-se as mãos, ajudando-à se levantar.

Cerca de três semanas depois da sagração do bispo, o padre da velha e longe vila se assustou com o que viu. Rezou não três, mas apenas uma missa. Apesar da tristeza, a paróquia ganhou mais um quinhão de terra ao sopé da serra. Ainda restaram alguns animais no pasto e alguns rastros de lobo guará no quintal já sem frutas.

Na velha vila, algumas pessoas perceberam uma mudança nas colheitas daquele ano. Menos chuvas nos dias errados, mais sol nos dias certos. Os mais velhos não conseguiam explicar. Os mais novos comemoravam a fartura. As marcas das enchentes enfraqueciam a cada ano até o esquecimento.

E um dia, quando longe não era mais adjetivo ou advérbio aplicável às terras onde no passado havia havido a velha casa dos Gonzaga, quando apenas os - agora - bem mais velhos se lembravam das histórias dos coriscos e das capoeiras que deram origem à mata sob a grande pedra cor de fogo, as mudanças no clima eram atribuídas a um tal de aquecimento global.

Veja só, caro leitor, a falta de poesia era tamanha que não percebiam o sempre jovem índio negro caminhando pelas estradas e campos acompanhado da sua eterna donzela, entre os passos confiantes de um e o caminhar dançante da outra, decidindo entre a brisa e o vento moderado, controlando as chuvas e acalmando os trovões, encantando-se e envolvendo-se em leves redemoinhos.

Leandro Faria  
Seu Gui do Armazém é o alter-ego de Gleison Santos. Ou talvez seja o contrário. Quem poderá saber?
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