segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Vertigens





Assisti Democracia em Vertigem no dia 21 de junho de 2019, logo depois que ele entrou para o catálogo da Netflix. Li alguns comentários sobre o filme de Petra Costa e, inocentemente, apertei o play e fui, pelo olhar da diretora, relembrando de tantas coisas que levaram o Brasil a chegar onde chegamos. Em junho de 2019, o governo Bolsonaro tinha apenas seis meses e já era um estrago. No início de 2020, vivemos em um país desolado, governado por imbecis que são seguidos por uma manada que, apesar de não ser maioria, é barulhenta e ignorante. 

E, com a indicação ao Oscar de Melhor Documentário, Democracia em Vertigem volta aos holofotes. As chances de uma premiação efetiva pela academia são pequenas. O favorito na categoria, de acordo com sites especializados, é Indústria Americana (American Factory, no original), que tem a chancela do casal Obama na produção. Mas, a indicação do filme de Petra Costa já diz muito sobre o cenário mundial e de como o mundo enxerga o Brasil nesse momento.

Como chegamos até aqui? Quantas vezes, ao contemplar o mar de merda em que estamos nos afogando, não nos fizemos essa pergunta? Democracia em Vertigem é uma pequena obra de arte, onde a jovem diretora Petra Costa entrega o trabalho de sua vida. Usando como fio condutor da narrativa a sua própria história, Petra vai desenhando tudo que levou a nos tornarmos o país dividido, com fascistas (e nazistas, que agora saem dos esgotos sem nenhuma vergonha) e preconceituosos dando as caras e chegando ao poder enquanto víamos o impensável acontecer.

Mais que tudo, Democracia em Vertigem é um filme doído. Que aperta o peito, nos causa raiva e, em muitos momentos, nos faz desacreditar totalmente dessa instituição que, aqui no Brasil, teimamos em chamar de democracia. Somos gado pastando, comendo capim. E muitas vezes nem vemos que tipo de atores somos nessa peça que estamos encenando.

O documentário, entretanto, não vai mudar a vida de ninguém que o assista. Ele fala pra convertidos e, quem acha realmente que vivemos um golpe absurdo e arbitrário, vai aplaudí-lo. Os imbecis, como o atual governo e seus asseclas, nem mesmo entenderão o que estarão assistindo. 

Ao fim do documentário, entretanto, não temos uma resposta fácil para uma pergunta que, muitos de nós insistimos em fazer: o que o futuro nos reserva? Temos apenas a certeza de que esse país deu muito errado. E o poço, como vemos todos os dias, não tem fundo e sempre é possível cavar um pouco mais na lama e nos afogarmos mais um pouquinho. 

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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