sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A Arte Acima de Tudo – Alair Gomes e o Olhar do Desejo





Nelson Rodrigues certa vez disse uma frase que tenho usado como um mantra nos nossos dias atuais: “invejo a burrice, pois ela é eterna”. Infelizmente, essa constatação é algo que eu preferia não querer enxergar, mas não tem como. Estamos cada vez mais cercados de imbecis. Por todos os lados, proliferam indivíduos que cerceiam, destroem, achincalham e aviltam todos os lampejos criativos que porventura ainda teimam em surgir em meio à escuridão. A arte e a cultura nunca foram tão desvalorizadas. Mas é impressionante que, mesmo tão bombardeada, ela resiste, como se existisse um campo magnético que a destaca em um grande patamar inatingível, acima dos acéfalos.

Hoje eu quero começar uma série de textos que vão abordar alguns artistas já consagrados, mas que atualmente seriam denominados “degenerados”, como oficialmente eram chamados os artistas modernos, difamados durante o governo nazista na Alemanha. À época, Hitler mandou queimar livros em praças públicas, fechou a mais importante escola de arte de vanguarda – a Bauhaus - e destruiu diversas obras, além de prender e perseguir artistas e professores que não se encaixavam nas formas de arte aprovadas pelo governo. Entre obras proibidas havia quadros de Picasso, Max Ernst, Matisse e Segall. Abrindo aqui um parêntese, vimos isso acontecer de pertinho, com aquele surreal e assustador vídeo do ex-secretário de Cultura Roberto Alvim citando trechos do nazista Joseph Goebbels, ministro de Hitler.

Falarei inicialmente sobre um dos meus artistas prediletos: Alair Gomes (1921-1992), um engenheiro civil que ficou mais conhecido como seu trabalho como fotógrafo, professor e crítico de arte. Em um momento de sua vida, quis ser escritor inspirado pela ousada poesia erótica e surrealista de Arthur Rimbaud. De certa forma, o entusiasmo pelo poeta francês ficou refletido em sua obra.

A obra conceitual de Alair Gomes é totalmente reflexiva sobre preconceito e liberdade, dentro do olhar voyeurístico de corpos masculinos seminus, clicadas por uma teleobjetiva de forma espontânea entre os anos 1960 e 1980, muitas delas, feitas de forma secreta da janela de seu apartamento, em Ipanema. As longas sequências que o tornaram um dos precursores do homoerotismo fotográfico eram realizadas, na sua grande maioria, na rua, através de códigos não verbalizados da masculinidade, revelando a espontânea interação e intimidade entre homens em público; além dos milhares de registros naturalistas da beleza, força física e sensualidade de rapazes anônimos se exercitando na praia. 

A maior parte de suas obras está na Biblioteca Nacional do Rio – cerca de 16 mil fotos, 150 mil negativos e mais de 30 mil páginas de manuscritos originais doados pela irmã. As fotos também podem ser encontradas no acervo da exposição permanente do MAM-RJ e MAM-SP, Itaú Cultural, MASP, Fundação Cartier (Paris) e MoMA (Nova York).

Apesar de serem minoria, o artista também realizava fotos posadas em seu apartamento. Provavelmente, em uma dessas sessões, Alair Gomes foi estrangulado em 1992. Houve uma suposição que um segurança de uma loja de discos que chegou a posar para ele (e por quem o artista estava apaixonado) seria o assassino. Entretanto, o crime nunca foi esclarecido. 

Apesar do final obscuro e melancólico, a obra de Alair Gomes tornou-se imortal e transcendental, transformando registros sob o olhar do desejo como uma das mais importantes da história da arte brasileira contemporânea.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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