terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Carta Aberta de Um Parasita






Prezado Sr. Ministro da República,

Ouvi dizer que, por meio de uma declaração pública sua, o governo brasileiro está quebrado porque gasta cerca 90% da sua receita (90% da receita total de um país é muita coisa!), com o funcionalismo público. Ainda, segundo a sua classificação, os funcionários públicos são parasitas, e que se torna urgente a aprovação da reforma administrativa ainda este ano, para que o dinheiro deixe de ser carimbado e chegue aonde realmente faz falta.

Caríssimo senhor Ministro, com todo respeito que o seu cargo requer, me permita lhe fazer algumas reflexões, ainda que as minhas palavras não lhe tragam o meu propósito ao expô-las. Em verdade, a palavra respeito é uma via de mão dupla, em qualquer tipo de relação, principalmente quando se trata de alguém que deveria zelar pelos preceitos na Constituição Federal, como lei maior de um país, do qual se é representante. E, por isso, eu, como funcionário público concursado, me senti extremamente desrespeitado e desprotegido, assim como as pessoas que aguardam o dinheiro público, citado pelo senhor, ser empregado onde deveria, mas não o tem, por força de desvios reiterados em gastos pessoais dos representantes do país.

A despeito de sua declaração, cabe ressaltar que em nota oficial, os Auditores-Fiscais da Receita Federal (Sindifisco-Nacional) afirmaram que o desequilíbrio das contas públicas, diferente do declarado pelo senhor, nobre Ministro, tem por origem "excessivos subsídios fiscais praticados por anos, em favorecimento de setores econômicos com privilegiada relação com o Governo e com o Congresso”. Poderíamos até mesmo citar alguns exemplos como cartões de crédito corporativos utilizados para procedimentos médicos e odontológicos de natureza estética, auxílio terno, auxílio moradia, dentre tantas outras benesses, que serviriam para cobrir parte do rombo citado pelo seu ministério.

Essa declaração mostra a parte da população (pelo menos a pensante) que esse comportamento é um retrato fiel do completo desconhecimento do funcionalismo público no Brasil, pelos seus atuais representantes, além de ser uma inverdade. A maioria dos servidores ganha pouco, salários abaixo de R$ 2 mil, por exemplo, o que não se compara ao salário de ministros, como o senhor, que estão em cerca de R$ 40 mil. Estes, ressalto, também não sofrem com atrasos em seus pagamentos, como tantos colegas que tiveram esse problema ao longo dos últimos anos, em função da crise econômica e política do país, estados e municípios. 

As ofensas gratuitas e inesperadas do senhor – altivo Ministro – nos obrigam, enquanto funcionários públicos concursados e não nomeados por favorecimento a um cargo de poder, a aconselhá-lo a estudar um pouco mais sobre políticas públicas (e não só sobre as bancárias privadas), para melhorar o seu claro despreparo em lidar com os desafios do setor público.

Se me permite mais um conselho bem básico, ilustre Ministro da República, ao invés de atacar gratuitamente os servidores, sugiro cuidar melhor da economia brasileira, que se mantém com mais de 12 milhões de desempregados, 41 milhões de trabalhadores informais e 7 milhões de subocupados, números explosivos e terríveis que comprovam a desastrosa política econômica atual do país, que ainda engana alguns, incutindo o pensamento de que se trata apenas de uma herança de governos anteriores. 

Por fim, soberano Ministro da República do Brasil, zelador dos direitos e interesses da população e dos servidores públicos (inclusive daqueles que se submetem a ficar sem salários ou com os mesmos congelados por anos, a fim de servir ao próximo), reforço que, caso não seja de seu conhecimento, assim como boa parte das políticas econômicas do país, qualquer manual básico de gestão consideraria a declaração pública desse ministério como assediante e desestimuladora. Trata-se de uma verdadeira tragédia ouvir da boca daquele que deveria estimular o bom funcionamento da máquina pública o anúncio de seu desmantelamento.

Agradeço sua atenção, senhor Ministro, e me disponho, como funcionário público de carreira há 11 anos, a conversarmos com antecedência de suas entrevistas para que, eventualmente (talvez por estar há cerca de um ano numa área até então desconhecida pelo senhor, visto sua experiência ser a de banqueiros privados), possa aconselhá-lo com o que, pelo menos, não se deve falar em respeito aos que ajudam (ainda) a levar o serviço público deste país, mesmo sem os recursos necessários que o senhor deveria auxiliar em disponibilizar.

Saudações, Parasita.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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