sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Mais um Carnaval Pra Conta!





Se eu pudesse, criaria um decreto: teríamos carnaval por 360 dias. Descansaríamos quatro ou cinco dias e numa sexta-feira qualquer, recomeçaríamos a festa, que seria incessante. O Carnaval é isso: uma festa que, apesar de oficialmente possuir cinco dias, a expectativa extrapola. É definitivamente a maior festa que temos. É o período em que retiramos as nossas máscaras e colocamos outras - aquelas que permitem que sejamos verdadeiros! 

Em cada esquina, os tradicionais baticuns se intensificam, assim como a morenice dos cariocas e a mistura dos sotaques na Babel dos trópicos. Carnaval é essa zona organizada dos bloquinhos, o furdunço do setor 1, local onde dividimos o espaço apertado, a cerveja, o sanduíche de queijo com presunto embalado no papel alumínio, os risos e as lágrimas com o amigo inseparável que você acabou de conhecer.

É no Carnaval que nossos pés criam aquela espécie de torpor momentâneo e passam a latejar no fim da noite – ou amanhecer. Constatamos bolhas gigantes, mas ainda aguentamos mais um dia, mais uma tarde, mais uma noite e mais um dia... É lá na Sapucaí que os pelinhos do braço arrepiam quando ouvimos o sinal disparar e a bateria invade ao som dos repiques, fazendo a plateia vibrar. É lá que compartilhamos o êxtase nos olhos quando os fogos explodem.

O mestre Joãozinho Trinta sempre dizia que o desfile das escolas de samba, assim divididas em alas (ou atos) era a maior ópera que se poderia apresentar a céu aberto.

Naquele momento singular, todos os olhos se viram para os integrantes que se tornam as estrelas principais da festa. Os artistas, de quem somos ídolos, nos aplaudem; o sorriso fica tatuado no rosto pelos 700 metros de avenida.

Só quem já pisou aquele asfalto sagrado consegue imaginar o que estou dizendo. Não dá para explicar e sim, só sentir esse imenso caleidoscópio de emoções. Ao mesmo tempo em que há o nó na garganta, a voz reverbera com mais intensidade. O suor escorre e se mistura com as lágrimas, os olhares e os sorrisos de desconhecidos potencializam. Há na Sapucaí uma incógnita que gerações inteiras nunca conseguirão explicar. Por ali, milhões já passaram e muitos milhões ainda hão de passar.

Ali há um início e um meio. E um fim. Mas este fim é somente uma linha imaginária. No arco da Apoteose, os carros apagam as luzes e nos despimos das fantasias, mas o coração continua pulsando forte. Os pés estão anestesiados e talvez por isso, poderíamos dar meia-volta para começar tudo de novo, em um misto de frenesi e catarse.

E mesmo que no dia seguinte já saiamos do torpor anestésico e passemos a ter os pés latejando de dor, a adrenalina continua tão intensa que, mesmo perdendo ou ganhando, começaremos do zero para apresentar um novo espetáculo e sentir novamente o misterioso universo de emoções.

Mais um Carnaval chegou! É chegada a hora de vivermos nossa real fantasia.

Leia Também:
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: