segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Ordinária





Já perceberam a necessidade absurda que a maioria de nós tem de fazer a vida ser importante, magnífica e relevante? Que a nossa passagem pela Terra tem de ser essencial para a história do planeta, que precisamos ser únicos e com grandes realizações? 

Um geração inteira foi ensinada a achar-se mais do que efetivamente é e, por isso, vemos tanta frustração e ansiedade ao nosso redor. Todo mundo precisa mostrar o tempo todo que é foda, maravilhoso e necessário. Que está no mundo pra fazer a diferença e que precisa fazer a sua voz ser ouvida. Descobrir um objetivo vital para chamar de seu.

Spoiler pra todo mundo: então, não. Na maioria das vezes, o resto do mundo está cagando e andando para você e suas ambições. E o "você que lute" é na verdade um "acorda pra vida, meu bem!". Sabe o objetivo que tanta gente procura? Pois é, ele não existe.

A vida é sim um presente precioso. Cada dia que acordamos e vivemos é uma dádiva e, se conseguimos fazer com que ela seja tranquila e feliz já é um grande bônus. Porque, apesar do que fomos ensinados, a vida é, em geral, ordinária. Comum. Simples. São dias atrás de dias, em que exercemos atividades cotidianas e nada relevantes e que, para o resto das outras pessoas, podem simplesmente não significar nada, porque efetivamente não significam. Mas, quando maximizamos tudo que nos predispomos a fazer, aí sim, vai dar ruim, porque a vida não tem de ser excepcional e extraordinária. Já disse e repito: ela é ordinária, como quase todos nós.

E não há nada de mal ou errado com isso. É apenas a realidade que, tantas vezes, fazemos questão de não ver. Os dias passam, a gente vive, envelhece e, eventualmente, morre. E o que há de vir pela frente é um enorme mistério, podendo ser, inclusive, nada. E a necessidade de deixar uma marca, de fazer a diferença, vai pro ralo junto com a nossa existência. 

Há muito tempo tento tirar de mim o egoísmo de achar que eu preciso de grandes realizações para ser feliz. Miro nas coisas simples, nos momentos com meus amigos, em refeições gostosas, em gargalhadas e pequenas alegrias. Mas também sei que os dias tristes fazem parte do pacote. E os entediantes. E os indiferentes e irrelevantes. Porque a vida é assim, feita de ondas de felicidade e tristeza, de euforia e de preguiça, de relevância e de irrelevância.

A vida é ordinária. Simples assim. E quando aceitamos isso, fica mais fácil levá-la de maneira mais consciente e aproveitando tudo que ela pode nos dar de melhor. Sem ansiedade ou frustrações.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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