sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Silenciar é Uma Maneira de Deixar de Existir





Ano passado assisti a um espetáculo chamado Colônia, no Teatro Poeirinha, com texto escrito por Gustavo Columbini e apresentado como um monólogo, ou uma "peça-palestra", com atuação do ótimo Renato Livera. Apesar do texto não ser explícito, Colônia era inspirada em um episódio que ficou conhecido como o “holocausto brasileiro”: a história de um hospital psiquiátrico em Barbacena, onde, entre os anos 1960 e 70, aproximadamente 60 mil pessoas morreram. A grande maioria dos mortos torturados não possuía nenhuma doença mental – eram indivíduos indesejados pela sociedade ou que tinham um comportamento considerado “fora do padrão”: meninas grávidas, alcoólatras, prostitutas, homossexuais e alguns opositores políticos. 

Durante a apresentação, fiquei atento ao grande quadro-negro do cenário, onde o ator realizava várias anotações e registrava palavras que se entrelaçavam, vinculando a história do hospício ao passado do Brasil Colonial e sua herança de mortes. Especificamente em uma dessas associações, fiquei estático. Renato Livera escreveu “Brasil” e iniciou o processo de dissecação de sua estrutura e morfologia. A palavra vinha a partir da derivação “calor da brasa” e associou-se à cor vermelha da madeira utilizada para tingir tecidos que os portugueses encontraram no país – o pau-brasil e o “vermelho como uma brasa”.

Imediatamente, aquela imagem utópica do Brasil predominantemente verde começou a se esvair – o verde das florestas, o azul do horizonte e o amarelo, das riquezas. Naquele momento, veio-me à cabeça que, assim como os escravos iludiam os senhores dos engenhos, adorando santos de maneira escondida para não serem punidos, houve um mecanismo para que durante tanto tempo escondessem a sua real cor. Estava ali, firmado, o tal Brasil sincrético. 

O sufixo “eiro” não permitiu que fôssemos batizados como brasileses ou brasilianos. Ao nascer, a palavra era advinda de uma profissão – tirador de pau-brasil, e não de uma origem, como foram designados os ingleses, franceses, portugueses, holandeses, americanos ou argentinos. Brasileiros eram índios escravizados por escambo ou criminosos banidos para nosso país por Portugal – indivíduos violentados pela extração da matéria prima que trazia rentabilidade para a coroa portuguesa. Antes dos franciscanos construírem o novo significado “nascido no Brasil”, ser brasileiro sempre foi pejorativo, com toda carga e sentido de dor e sofrimento.

Então criaram o Tratado de Tordesilhas, mas as fronteiras nunca foram respeitadas. Piratas invadiam a costa, extraiam a madeira, desmatavam e provocavam incêndios. Na construção social, deram-nos diversos heróis: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi retratado como um Jesus Cristo ocidental. Também deram-nos patronos um tanto quanto controversos... Duque de Caxias foi um pacificador ou um genocida? Inclusive, deram-nos um paraíso com nome de representante de banqueiros – Fernando de Noronha foi o primeiro ricaço a financiar a exploração da madeira. Um vilão. E então? O que mudou, desde 1500?

O Brasil continua sendo um grande cemitério indígena, digno de uma polis-poltergeist. Se vasculharmos nosso solo, ainda encontraremos caveiras ensanguentadas, com mandíbulas retorcidas. Nada mudou. O que muda é a faceta, que, de tempos em tempos, é apresentada de forma ligeiramente modificada. Seu povo, em sua maioria, ainda continua sendo manipulado pelo patriarcado. Indivíduos sexistas, homofóbicos, racistas e repleto de preconceitos continuam criando heróis de caráter questionável, exemplos de supostos salvadores da pátria que tripudiam de seu povo e ainda resgatam termos estigmatizantes, de forma desrespeitosa e ignorante.

O desmonte nunca deixou de existir. Os canalhas, execráveis, repulsivos, ignóbeis, infames, mesquinhos e hipócritas sempre estiveram ao nosso lado. Em estado latente, frequentavam as mesmas reuniões, eventos, cumprimentavam-nos e até sorriam. Alguns dividiam o mesmo espaço na condução lotada e tantos outros dormiam até na mesma cama. Nos becos e vielas, o pau-brasil ainda continua a ser explorado e os homens se alimentam de ratos e água de esgoto. No território, os brasileiros cortam a própria pele e o sangue continua jorrando, “vermelho como uma brasa”. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Márcia Pereira disse...

Brasil, mostra a sua cara! Belo texto!

piá disse...

Tô de cara! Sabia disso não, mas faz todo sentido. Muito bom texto, amigo! Saudade de vc!!