segunda-feira, 4 de maio de 2020

O Brasileiro Médio





O brasileiro médio é viajado. Tem passaporte, conhece alguns países, visita museus e se acha culto. Viveu o boom econômico, andou de avião, construiu um pequeno patrimônio e tem orgulho de quem se tornou. Ou então nunca fez nada disso, mas age como se fizesse e se ressente muito por não ter tido esse tipo de experiência, porque se julga melhor que os demais à sua volta e um injustiçado pela sociedade.

O brasileiro médio se acha americano. Ama a livre economia, gosta de comprar e de gastar o suor de seu salário não se furtando de, algumas vezes, estourar seu limite ou parcelar à perder de vista para viver uma experiência ou ter realizado o seu sonho de consumo.

O brasileiro médio se acha rico. Com uma renda anual que não passa dos R$ 150 mil, tem pavor de imaginar a taxação de grandes fortunas e acha que o lucro das grandes empresas é dele. Defende a exploração sem perceber que ele próprio é explorado. 

O brasileiro médio é racista, misógino e homofóbico sendo muitas vezes ele mesmo um brasileiro negro, mulher ou gay - algumas vezes, sendo até mesmo tudo isso. Mas acha que não e até usa o discurso de que até tem amigo dentro de minorias para provar o seu ponto de vista. Porque sim, o brasileiro médio tem muita opinião, mas não se atém à nenhuma base científica ou estudo aprofundado. 

O brasileiro médio debocha dos mais pobres e de suas crenças, mas reproduz discursos que ecoam nessa população, usando um verniz de pseudo-conhecimento para difundir sandices e idiotices. E, quando confrontado com fatos, o brasileiro médio aumenta o tom, grita e se faz de ofendido. Prega contra a liberdade de expressão, mas se recusa a ser calado quando fala barbaridades e impropérios.

O brasileiro médio é contra a corrupção. Mas é hipócrita e fecha os olhos para as suas pequenas corrupções diárias. Fura fila, sonega imposto de renda, bebe e dirige, tem gato em casa, trai o marido ou a mulher. E ainda conta vantagem do que faz, sentindo-se esperto e superior. 

O brasileiro médio certamente votou 17 nas últimas eleições, mas não só necessariamente. Ele pode também ter anulado ou deixado de votar, preferindo pagar uma pequena multa. Ou pode ter votado no Amoedo, no """Novo""". Para o brasileiro médio, o que importava era tirar o PT do poder e não deixar que o Brasil se transformasse em uma Venezuela, tinha de trocar tudo aquilo que estava por ali e mudar o sistema de cabeça para baixo, mesmo que para isso fosse necessário eleger um acéfalo, miliciano e assassino como presidente.  

O brasileiro médio é burro e bem menor do que se julga efetivamente. E ele está ao nosso redor no trabalho, nos grupos do Facebook, nos transportes públicos e em todos os lugares. São ratos que saíram da toca, abraçaram o fascismo e o cobriram com o manto da tradicional família brasileira.

O brasileiro médio pode ser o seu chefe. O seu pai. A sua mãe. Os seus irmãos, primos ou conhecidos. O brasileiro médio pode ser você. 

O brasileiro médio, meus caros, tem sangue nas mãos. E não se importa com isso; ele se orgulha. Talvez, só irá realmente se importar quando for ele o sacrificado pela própria ignorância. Mas, quando isso acontecer, seremos nós, os demais brasileiros, que não nos importaremos.

Leandro Faria, 04/05/2020
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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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