terça-feira, 2 de junho de 2020

O Copo de Leite





Juro que gostaria de acreditar que eles são um amontoado de inocentes.  Mas, infelizmente, a cada dia que passa, os fatos me apresentam a certeza do que muitos não querem enxergar.  Não se iludam, amigos, não se iludam.  E tentem entender de uma vez por todas que nada ocorre por uma simples coincidência ou acaso, pois tudo é milimetricamente pensado.  Tudo tem seu papel para criar a polêmica e desviar a atenção dos fatos que realmente importam. Tudo é enquadrado para que os intelectuais realmente percebam as reais intenções que estão por trás de tudo.

A analogia é notada por poucos.  Muito poucos.  E se esse bocadinho de gente gritar ou espernear, eles dirão que estão completamente loucos.  Isso gerará um debate nos principais jornais e dará caminho para a boiada passar.  Os que caíram no feitiço, ainda hipnotizados, agredirão e humilharão quem entendeu o recado. 

Às vezes, queria ser como aquelas pessoas que não percebem um palmo de seu nariz.  Simbologias?  Para elas, certamente a verdade foi a pronunciada: um desafio da Associação Brasileira dos Produtores de leite com o objetivo de valorizar os pecuaristas, a atividade leiteira e o consumo.  Simples assim... Uma brincadeirinha pueril, até.

Entretanto, ainda não deu pra esquecer daquele triste e tenebroso episódio ocorrido em janeiro, com o secretário especial da Cultura, em um vídeo, citando trechos idênticos do discurso de Joseph Goebbels ao anunciar a liberação de R$ 20 milhões para um prêmio de artes, com a música de fundo da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, a preferida de Hitler.

A referência foi notada imediatamente.  Por poucos.  Mas um bocadinho de gente que esperneou, e reverberou. 

“É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte /  Atenção para a estrofe e pro refrão / Pro palavrão, para a palavra de ordem”, já dizia Caetano e Gil, pronunciado pela bela Gal, há mais de 50 anos.  Por trás do Divino, maravilhoso, nunca esquecemos de deixar ligado em nossa mente, o sinal amarelo.  Sim, nós sabemos fazer associações.  Entendemos direitinho o recado. 

Entendemos o brinde!  Tragam os copos de leite!  

E tudo isso em seguida à eclosão das manifestações em Minneapolis.  Após ao assassinato de um homem negro, sufocado até a morte por um policial branco, que ainda permitiu que fosse filmado, como se estivesse caçando um alce e pudesse pendurar a cabeça na parede da sua sala, como prêmio.

Nós sabemos o que significa vestir roupas com capuzes e segurar tochas no meio da noite.  Nós sabemos quem são os extremistas brancos americanos da Alt-Right.  Aff... que piada velha, já que isso começou nos EUA, três anos atrás.  Nós entendemos as referências neonazistas:  “tomar branco, se tornar branco”.

Manjadíssimo.  A cultura pop já mostrou isso sob vários ângulos.  Tarantino nos revelou em Bastardos Inglórios, quando um fazendeiro francês oferece uma taça de vinho ao coronel nazista que, em seguida, bebe um copo de leite de uma só vez: o poder da vilania sobrepujando a pureza humana.

Os guerreiros de Mad Max bebiam leite materno de mulheres escravizadas.  Jordan Peele fez sua vilã Rose, em Corra!, comer cereais separado do leite: ela segrega o branco e o colorido, em uma clara alusão ao racismo.  E usa sua aparente inocência para atrair vítimas.

Ah, ainda tem o mestre Kubrick com sua gangue do mal liderada pelo jovem Alex DeLarge em Laranja Mecânica.  O sadismo, o terror, a tortura, os estupros, os assassinatos... Um sociopata que ouve Beethoven, cita trechos da Bíblia, pertence à Igreja e tem sede de poder.  Não tem empatia.  Perpetua a violência simplesmente pelo prazer de se sentir bem consigo.  Sua bebida preferida, é o leite, pois é nele que encontram a força para a ultraviolência.

Vivemos em um país onde a pandemia chegou meses depois do restante do mundo e onde houve tempo para aprender com os erros.  Mas infelizmente, a névoa da cegueira, da irresponsabilidade, imprudência, insensatez, negligência e leviandade, já fizeram meio milhão de infectados e mais de 30 mil mortos.

Enquanto isso, eles personificam Alex DeLarge e brindam!

- Encha o copo de leite, agora!

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Ed Junior disse...

Acabei de conhecer seu blog e já gostei muito. Parabéns pelos textos.