terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Preferidos do Barba: Melhores Livros (Lidos) de 2020



2020, que ano! Difícil escrever sobre qualquer coisa melhor neste ano em que muitos segmentos foram prejudicados em função da pandemia. Em razão do trabalho, eu, em especial, estive mais envolvido com literaturas sobre equipes, lideranças e gestão do tempo, pois o trabalho me demandou (assim como de inúmeros outros terráqueos) uma carga laboral muito maior no home office. E eu precisava estar atento a estas questões para não surtar, e não surtar os outros... 

E falando em não surtar... Nos poucos momentos que me dediquei a uma leitura aleatória à rotina que descrevi anteriormente, resolvi ler biografias. Ainda mais sobre a vida de pessoas que eu já conhecia, assim seria mais fácil assimilar as informações pelo pouco de massa encefálica não atingida pelo cansaço do trabalho. 

Apesar de tudo, eis que estamos aqui, resistentes e prontos para gritar que sim, cultura e informação aqui no Barba não se calam! E, por essa razão, viemos compartilhar os Melhores Livros que lemos em 2020 e mostrar que a cultura, seja ela por qual mecanismo for, sempre irá nos trazer discernimento nos nossos pensamentos e atitudes. Eis os nossos escolhidos.

Memórias, de Xuxa Meneguel
Por Júlio Britto

Sou fã da Xuxa (julguem-me) e ler esse livro, onde ela despe-se daquela imagem infantilóide que sempre a acompanhou, confesso ter sido um bálsamo. Ao longo dos últimos anos, Maria da Graça Meneguel tem se permitido viver e dizer o que pensa, colocando pra fora, coisas que antes eram proibidas, em função da personagem que vivia. 

Xuxa é hoje uma mulher madura, dona de si e se revela nas páginas do livro de forma muito humana, mostrando quem ela verdadeiramente é, o que me trouxe mais identificação com ela. Apenas para quem tem curiosidade de ler o livro, ela não dedica uma grande parte à sua principal empresária e amiga de muitos anos, Marlene Mattos. Mas vale, e muito, a leitura, para quem, como eu, foi baixinho da Xuxa.

daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá
Por Paulo Henrique Brazão

Certa vez, ouvi que nós nunca lemos tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco. E é verdade. Acho que eu nunca li tão poucos livros na vida como agora; em compensação, começamos e terminamos o dia lendo mensagens, textos, posts, etc. Em 2020, em meio à pandemia, o meu melhor livro foi um reencontro. Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá (Vertigo / Panini Books), com o qual fui presenteado anos atrás pelo meu amigo daqui do Barba Feita, Marcos Araújo. À época eu já havia o lido e achado muito tocante. Agora, então, em meio à crise mundial da Covid (seja de saúde física, mental, financeira, entre tantas outras), Daytripper faz ainda mais sentido. 

Trata-se de uma história em quadrinhos sobre a vida de Brás de Oliveira Domingos. Filho de um bem-sucedido escritor, Brás passa seus dias escrevendo obituários e sonhando se tornar também um autor de sucesso. A metáfora sobre alguém que escreve sobre o fim da vida de outros e pouco reflete sobre a sua própria é usada o tempo todo nas páginas de Daytripper. E cada capítulo do livro é um tratado sobre a efemeridade da vida e o que marca seu começo e seu fim. 

Um dos poucos livros que me arrancaram alguma lágrima até hoje...

Verity, de Colleen Hoover
Por Silvestre Mendes


O primeiro livro de Colleen Hoover que li foi O Lado Feio do Amor e achei uma tragédia, em vários sentidos da palavra. Uma trama que não funcionou para mim, com personagens que sofriam muito, mas não explicavam quase nada que permitisse empatia por eles. 

Mas em Verity, a autora decidiu visitar uma história de mistério e tudo fez muito sentido. O livro conta a história de Lowen Ashleigh, uma autora à beira da falência e prestes a ser despejada de seu atual apartamento, e de Verity Crawford, autora renomada e que acaba precisando de uma ajudinha para finalizar sua coleção de livros... Quando o universo dessas duas mulheres colidem, o leitor fica abismado. 

Se você gosta de suspense e cenas picantes, Colleen Hoover foi feita para você.

Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela, de Ignácio de Loyola Brandão
Por Marcos Araújo

Ignácio de Loyola Brandão é sarcástico, ousado, enigmático e um dos meus autores favoritos. E o que mais impressiona neste 45º livro do rei da distopia (escrito em 2017) é a visão futurística aterradora em que o romance se desenvolve. 

No Brasil de um futuro – próximo – devastado por 113 impeachments, não existe mais no vocabulário a palavra política – que foi banida e substituída por “astutos”, pequenos seres que nunca aparecem em público e vão diminuindo de tamanho à medida que recebem propinas. Ninguém também conhece os rostos dos magistrados do Ultrassuperior Tribunal, que fica localizado em um prédio blindado com inúmeros túneis secretos. Os magistrados, que estão a serviço dos interesses dos mais de 1000 partidos, podem levar décadas para julgar processos, já que a Constituição se tornou um livro de mais de 100 mil páginas. Ninguém sabe onde fica a capital federal, não existem mais escolas, assim como os ministérios do Meio Ambiente, Direitos Humanos, Cultura e Saúde. Com um quê de 1984, de Orwell, os indivíduos que nascem recebem tornozeleiras eletrônicas e chips para que suas ações e pensamentos sejam controlados. Todos os costumes são julgados pelas Ligas Íntimas da Pureza Sexual e a população não consegue mais distinguir a realidade. Além disso, a autoeutanásia é legalizada para os idosos e milhões de brasileiros morreram em uma grande epidemia que nunca foi controlada. Todos usam máscaras e não podem respirar nas ruas, com medo da contaminação. Volto a lembrar: esse livro foi escrito em 2017.

É nesse cenário assombroso que é centrada a história de amor de Clara e Felipe, a partir de seu rompimento.

Leitura obrigatória!

(quase) borboleta, de Helder Caldeira
Por Leandro Faria

Lembro da minha surpresa ao ler Águas Turvas, o romance de estreia de Helder Caldeira. Eu me apaixonei pela história, pela narrativa, pelos personagens. Isso tudo sem esperar e sendo arrebatado por aquela obra. 

Assim, foi com ansiedade que comecei a leitura de (quase) borboleta, o novo livro do autor (que tenho orgulho de dizer que nasceu na mesma cidade que eu e é da minha geração). E que deleite de livro, quanta delicadeza para se contar uma história de amor. 

Um dos temas da história de Albert, um jovem criado em uma religião cristã de dogmas sensíveis, e Jared, um fotógrafo que é também uma celebridade, me é bastante conhecido. Talvez por isso eu tenha demorado para embarcar nas cores fortes e dramatúrgicas que Helder dá à narrativa. Mas foi impossível não me render. A poesia da escrita (e a trama envolvente e carregada no drama, que nos faz viajar) se sobrepõe ao preciosismo de minhas memórias. 

(quase) borboleta, para mim, é uma ode às liberdades e ao amor. Ao direito de cada um ser quem é e como é, amando a si e ao próximo, mesmo que algumas (muitas) religiões insistam em dizer que o amor é pecado e preguem o ódio ao invés dos ensinamentos de Cristo. 

Um livro lindo e doce. E com uma mensagem poderosa, como o bater de asas de uma borboleta.
Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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