quarta-feira, 28 de junho de 2017

Há Mais Vida Fora do Armário





Vivemos um mês inteiro dedicado ao Orgulho LGBT e, mais especificamente essa semana, a causa ganhou mais visibilidade mundo afora. Vimos bandeirinhas pulularem no Facebook, paradas protestarem no Brasil e no mundo, casais homoafetivos declarando amor em público. Mas sabemos que isso é muito mais uma onda de otimismo e esperança do que a realidade da maioria. O Brasil é o país que mais mata por homofobia no mundo: média de praticamente uma morte registrada por dia. Isso sem contar os demais assassinatos ignorados e os diversos outros tipos de agressão, física e psicológica, que os LGBT sofrem diariamente.

Lembro-me da primeira vez que ouvi de um conhecido que foi morto aparentemente por homofobia. Um colega meu, amigo do meu primeiro namorado, com quem cheguei a sair junto para a balada e na casa de quem cheguei a dormir para não precisar voltar muito tarde para Niterói. Foi encontrado morto, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. A Polícia disse que tinha sinais de que poderia ter sido motivado por perseguição sexual. O maior medo da grande maioria das pessoas é morrer. Ainda mais morrer simplesmente por ser quem você é. E quando isso chega tão perto de você é assustador. Não é algo que se passa em Brokeback Mountain ou no rodapé do noticiário. É com alguém que pegou na sua mão e acolheu você em sua casa.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Orgulho




Apesar de o mês de Maio ser dedicado a todxs inseridxs na bandeira LGBTQ, o orgulho a qual me refiro no título é outro. É aquele orgulho que vem disfarçado de força de vontade, ou de pura teimosia, e também por não querer dar o braço a torcer e admitir pra todo mundo que você... Não queria dizer falhou, mas acho que é o que melhor descreve.

Não tá dando certo. Você sabe que não tá. Os sinais estão vindo de todos os lados, mas você resolve ignorá-los e, às vezes até os encara, mas num último momento, decide deixar pra lá, ir no Facebook/Instagram/Twitter e postar "Whatever it takes 'cause I love the adrenaline in my veins"

segunda-feira, 26 de junho de 2017

A Trilha da Pedra Bonita e Seu Visual Arrebatador



Preciso confessar que sou um preguiçoso nato. Treino na academia, faço as minhas corridinhas, mas tudo isso é para o que chamo de "controle de danos". Eu amo comer besteira, eu bebo e, para equilibrar um pouco as coisas eu tento "pagar", mantendo-me em movimento, compensando os excessos. Afinal, eu não vou parar de comer e de beber, então os exercícios estão aí para melhorar um pouquinho as coisas. E que fique claro: eu não gosto de treinar ou de correr; mas a sensação de dever cumprido depois de fazer essas obrigações vale a pena se comparada ao esforço.

Dito isso, eu preciso dizer que tenho amigos aventureiros, que adoram mato, fazer trilhas e se embrenhar por caminhos desconhecidos. Uma das minhas melhores amigas, por exemplo, já foi ao Monte Roraima, numa experiência que eu classifico como loucura; ela, como uma das melhores coisas de sua vida. E, durante muito tempo, eu a via planejando trilhas e passeios aqui pelo Rio e nunca me interessei em acompanhá-la. Na minha lógica, para que subir morros para ver paisagens que eu poderia apreciar por fotos ou vídeos? Pensamento de preguiçoso, né? 

domingo, 25 de junho de 2017

Um Encontro Com o Eu





Me vi esposa, me fiz madura, me recriei, me reciclei, e quando não tinha mais papéis para inventar, decidi ser Eu. Mas o Eu discorda, o Eu não aceita, o Eu chora, o Eu briga, o Eu tem vida própria e isso foi demais pra nós. A casa, que já era pequena, ficou menor quando o Eu chegou; até insistimos para que fosse embora, mas entre uma briga e outra, uma indiferença aqui, uma frieza acolá, ele decidiu ficar, disse que seria melhor assim. O Eu foi ficando espaçoso, foi nos distanciando e, quando eu percebi ele já dormia em nossa cama, não nos encontrávamos mais entre os lençóis, quanto mais tentávamos nos achar mais nos deparávamos com o Eu.

Um dia, finalmente consegui expulsá-lo. Depois de ter me perdido, me calado, de ter me esquecido, depois de ter pedido desculpas sem ter errado, não consegui mais ver o Eu, ele tinha mesmo ido embora. No primeiro dia sem ele não houve briga; no segundo, um afago em meu rosto; no outro, nos encontramos embaixo do edredom; tudo havia voltado ao normal, a distancia entre nós já não existia, mas sim um grande e profundo vazio em meu peito.

sábado, 24 de junho de 2017

A Síndrome dos Seis Anos





Aos 21 anos de idade, decidi que era o momento de sair de casa. Deixei o pequeno e tedioso balneário em que morava com meus pais no Rio Grande do Sul, e parti para a capital gaúcha. Era o ano de 2003, eu queria ser escritor, sempre, desde que me entendia por gente, mas não apenas escrever, sobreviver disso. Mal sabia da utopia que isso representava. Impossível não era, mas muito, muito, muito difícil. Então tracei mil planos e atalhos. Queria me formar em jornalismo, mas a grana era curta e a faculdade cara. Parti para um plano B. Curso técnico. Adorava cozinhar. Me meti em um curso de Técnico em Nutrição. E lá fui eu, sair das asas da família para estudar em Porto Alegre.

O pai de boa, a mãe inconformada, e eu feliz da vida, cheio de expectativas e com o coração aos pulos. Liberdade, cultura, glamour e o meu futuro brilhante me aguardavam logo ali, não tinha erro, estava tudo bem planejado. Em cinco anos, pelo menos metade das minhas metas estariam alcançadas com sucesso. Seis anos depois de muita ralação, privação e decepção, olhei o horizonte daquela Porto Alegre que eu tanto amava e que tanto me prometia pela vista privilegiada que eu tinha da minúscula quitinete onde morava, e pensei: pra mim não dá mais, preciso de novos horizontes, novos desafios e uma oportunidade maior que você não me deu nesses seis anos suados e batalhados.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Após o Fim, Ainda Restará a Hipótese





Enquanto releio algumas matérias de jornais expostas na timeline de meu amigo morto, também observo atentamente centenas de comentários deixados pelos familiares, amigos e conhecidos. Uma sensação angustiante se espalha em mim, misturado com um sentimento de revolta, impotência, tristeza e até uma certa resignação que não gostaria de admitir.

Ele foi assassinado na madrugada de um sábado qualquer. Estava em um bar, tomando uma cerveja com a namorada quando uma bala perdida encontrou seu peito, após ter sido disparada após um assalto corriqueiro. Momentos antes, parecia instantaneamente feliz, rindo com os amigos que o zoavam após a publicação de uma foto sua no Facebook, com uma grande flor amarela na cabeça. Segundos depois, só havia o silêncio e a escuridão. A morte havia dado-lhe a pancada certeira.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Pé no Acelerador de São Paulo




Esses dias bateu uma baita saudade de São Paulo. O mais engraçado é que quando surgiu a oportunidade para eu morar por lá, pulei fora. Eu não estava pronto. Era muito novo e deu medo. São Paulo é muito grande. Intimidadora em uma primeira visita, um novo contato. A cidade não te dá intimidade sem te conhecer primeiro. O que acaba sendo o oposto do Rio, que te convida a confraternizar com o outro. Fazer amizades, sair sentando na mesa de desconhecidos em um boteco qualquer na esquina. A ser completamente gente fina.

Não que São Paulo não seja tudo isso; é! Só que São Paulo tem seus momentos dentro da própria imensidão. A cidade te oferece opções das mais variadas. Ali na própria Paulista tem uns cafés que você pode ir todo arrumado, mas virando algumas ruas você vai parar na Augusta e pode ser o porra louca que quiser. Dependendo da rua, do seu estado de espírito e da sua disposição, você pode se descobrir inúmeras vezes.